O que parecia uma ideia digna de ficção científica começa a tomar forma como uma alternativa concreta para o futuro da alimentação. A Fundação Bill & Melinda Gates e a Fundação Novo Nordisk acabam de renovar seu apoio ao Acetate Consortium, iniciativa que visa transformar dióxido de carbono (CO₂) em alimentos nutritivos por meio de processos fermentativos inovadores.

Na nova fase do projeto, as fundações vão investir cerca de US$ 25,6 milhões (162 milhões de coroas dinamarquesas) para escalar as tecnologias desenvolvidas até aqui e avançar na criação de protótipos alimentares que poderão, em breve, chegar ao prato do consumidor.

“Dois anos atrás, transformar CO₂ em comida parecia algo impossível. Hoje, já conseguimos visualizar produtos que serão testados por consumidores reais nos próximos anos”, afirma Claus Felby, vice-presidente da área de agronegócio e alimentos da Fundação Novo Nordisk.

Uma nova lógica de fermentação: do CO₂ ao prato

A proposta do Acetate Consortium é ambiciosa: criar proteínas alternativas utilizando micro-organismos que se alimentam de acetato, uma substância derivada do CO₂ capturado. Em vez de usar açúcar como fonte de carbono — prática comum na fermentação tradicional —, o projeto aposta em um caminho mais sustentável e disruptivo.

O acetato é produzido por meio de processos eletroquímicos que transformam emissões de carbono em um insumo capaz de alimentar microrganismos. Esses organismos, por sua vez, produzem proteínas de alta qualidade que podem ajudar a alimentar populações inteiras, reduzindo drasticamente o uso de terras agrícolas e a pegada ambiental da produção de alimentos.

Na primeira fase do projeto, as equipes científicas conseguiram desenvolver cepas microbianas que crescem exclusivamente com acetato e apresentam mais de 40% de proteína em sua composição. Além disso, foram construídas instalações-piloto na Universidade de Aarhus, na Dinamarca, e identificados os principais fatores de custo do processo: eletricidade e infraestrutura.

A próxima etapa: escala, sabor e impacto real

Com a renovação do apoio financeiro, o consórcio entra agora em uma fase decisiva. O objetivo é otimizar e escalar as tecnologias, e sobretudo, transformá-las em alimentos viáveis e desejáveis. A nova fase reúne 10 parceiros, entre eles o Centro de Pesquisas em CO₂ da Fundação Novo Nordisk, a Novonesis, a Orkla Foods, a Topsoe, diversas universidades e o centro de inovação alimentar Spora — criado por ninguém menos que Rasmus Munk, chef do restaurante Alchemist, detentor de duas estrelas Michelin e eleito o melhor chef do mundo em 2024.

O papel do Spora será essencial: transformar o que hoje é tecnologia de laboratório em ingredientes saborosos e com apelo gastronômico. “A tecnologia que desenvolvemos pode mudar a maneira como o mundo produz alimentos. Nossa missão agora é torná-la não apenas nutritiva, mas também deliciosa”, afirma Munk.

A ideia é criar alimentos proteicos para o dia a dia, com baixo impacto ambiental e que possam ser consumidos por famílias — especialmente em comunidades onde o acesso à alimentação nutritiva ainda é um desafio.

“Uma das grandes forças da Dinamarca está justamente em conectar ciência, indústria e gastronomia. Isso nos torna um país ideal para testar novas tecnologias como essa, onde o CO₂ vira matéria-prima”, comenta Felby.

Inovação climática com sabor local e alcance global

A Dinamarca, aliás, já se posiciona como referência global na transição proteica. Foi o primeiro país a estabelecer um imposto sobre a produção de carne e laticínios, além de implementar um plano nacional para promoção de alimentos plant-based, que agora tenta levar para toda a União Europeia durante sua presidência no Conselho Europeu.

A Fundação Novo Nordisk, que tem forte presença no setor de saúde com seus medicamentos GLP-1 como Ozempic e Wegovy, também tem investido cada vez mais em soluções para o futuro da alimentação. Um exemplo recente é o aporte de US$ 7,6 milhões em um projeto baseado em inteligência artificial para desenvolver proteínas vegetais menos processadas.

Um movimento global de transformação do carbono em alimento

O Acetate Consortium é parte de um movimento mais amplo que enxerga no CO₂ não apenas um problema climático, mas também uma matéria-prima valiosa. Startups como Solar Foods, Air Protein, LanzaTech, Jooules, Aerbío e Unibio também estão explorando a fermentação gasosa para criar alimentos a partir de carbono.

A diferença é que, com o apoio de duas das maiores fundações do mundo e a colaboração de cientistas, indústrias e chefs renomados, o consórcio dinamarquês está em posição privilegiada para transformar inovação em soluções reais — com sabor, nutrição e impacto climático positivo.

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