Na temporada Primavera/Verão 2026, durante os desfiles em Paris, a estilista britânica Stella McCartney levou à passarela um material inédito: penas feitas a partir de plantas. Sem recorrer a animais ou plásticos, ela apresentou uma nova abordagem estética e ética para um dos elementos mais controversos da moda.
Conhecida por seu compromisso de longa data com práticas sustentáveis e livres de crueldade, Stella firmou parceria com a startup britânica Fevvers para desenvolver essas penas inovadoras, que foram destaque em três vestidos da nova coleção “Come Together” — marcada por tons suaves e proposta leve, tanto no visual quanto no impacto ambiental. A coleção celebra os 25 anos de sua marca, reforçando seu pioneirismo no segmento fashion sustentável.
Em entrevista à AFP, Stella foi direta: “Falo há mais de 30 anos sobre não matar vacas, cabras ou cobras para fazer sapatos e bolsas. Mas só recentemente percebi o quanto as penas também fazem parte de um lado cruel da indústria.”
A crueldade por trás das penas
As penas são há séculos associadas ao luxo e status social, e ainda hoje são amplamente usadas, principalmente em casacos e acessórios de inverno. Mas por trás dessa estética há uma realidade preocupante. A obtenção de penas envolve, em sua maioria, o sofrimento e a morte de aves como avestruzes, pavões, patos, perus e galinhas.
Segundo Stella, cerca de 3,4 bilhões de patos e gansos são mortos anualmente para a extração de penugem, e mais de um milhão de avestruzes são abatidos todos os anos. Muitas dessas aves são mantidas em condições precárias, confinadas em granjas industriais, e submetidas a métodos cruéis, como choques elétricos antes do abate. Relatos mostram que em alguns casos as penas são arrancadas com os animais ainda vivos — prática que deixa feridas abertas e gera extremo sofrimento.
Além disso, penas conhecidas como “marabou” nem sequer vêm das aves que levam esse nome, mas sim de perus e frangos criados na indústria da carne. Granjas de criação de pavões, por exemplo, chegam a abrigar até 10 mil animais em espaços apertados, onde doenças se espalham com facilidade.
Nem toda pena sintética é solução
Diante da crueldade, muitas marcas optaram por penas sintéticas. No entanto, essas alternativas geralmente são feitas de poliéster, um derivado do petróleo. Embora não envolvam animais, essas fibras plásticas trazem seus próprios impactos: demoram séculos para se decompor, liberam microplásticos que contaminam rios e oceanos, e afetam negativamente a saúde humana e da fauna marinha.
A inovação das penas vegetais
É nesse contexto que as penas vegetais criadas pela Fevvers ganham destaque. Produzidas com fibras naturais, cultivadas e tingidas de forma artesanal, elas carregam não só um apelo sustentável, mas também uma estética única. Cada pena é levemente diferente — como uma impressão digital — justamente por não serem produzidas em linha industrial.
“Outras imitações lembram penas, mas não enganam. Esta passa no ‘teste do segundo olhar’. Você vê e pensa que é real”, contou James West, cofundador da Fevvers, em entrevista à Vogue.
Stella completou: “Crescemos folhas de grama, tingimos com corantes naturais e as costuramos à mão em silhuetas incríveis. O efeito visual é o mesmo — só que sem matar bilhões de aves.”
Caminhos para a mudança
Nos últimos anos, os apelos por uma moda livre de penas têm crescido. A própria Stella McCartney assinou o compromisso “Feather-Free” da organização PETA, que também organizou protestos durante a London Fashion Week. Mesmo assim, as quatro grandes semanas de moda — Paris, Londres, Nova York e Milão — ainda não adotaram restrições ao uso de penas. Enquanto isso, cidades como Copenhague, Estocolmo, Helsinque e Melbourne já deram esse passo.
Será que a estreia das penas vegetais em Paris pode acelerar esse movimento?
Essa não é a primeira vez que a estilista se envolve com alternativas éticas às penas. Em outra coleção, usou o BioPuff, feito a partir do bulbo da taboa (também conhecida como ponda), em substituição ao enchimento de plumas de ganso. O material foi aplicado em versões da sua icônica bolsa Falabella.
Mas, como pontua Stella, a inovação precisa de apoio para escalar: “É curioso como essa técnica ainda não pode ser produzida em larga escala, enquanto matar aves aos montes é considerado normal na indústria.”
A parceria com a Fevvers e o estúdio têxtil indiano Chanakya International abre espaço para novas possibilidades — e quem sabe para uma virada definitiva rumo a uma moda verdadeiramente livre de crueldade e de impacto ambiental nocivo.
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