A Planetary, empresa suíça especializada em fermentação, firmou um acordo de parceria com a DCM Shriram Bioseeds (DBO), um dos principais grupos agroindustriais da Índia com capital aberto. O objetivo é levar a produção de micoproteína para uma das usinas de açúcar da DBO no país, ampliando o acesso a proteínas alternativas em escala industrial.

Por se tratar de uma parceria com uma empresa listada em bolsa, a Planetary não divulgou prazos para o início da operação. Em entrevista à Green Queen Media, o fundador e CEO da companhia, David Brandes, explicou que, neste momento, não é possível comentar sobre o cronograma devido a obrigações legais e de divulgação relacionadas à parceira indiana.

Em vez de apostar na construção de fábricas próprias do zero, a Planetary vem adotando um modelo descentralizado, com múltiplos polos de produção integrados a parceiros agroindustriais já estabelecidos. Essas unidades utilizam subprodutos agrícolas como insumo, aproveitando infraestruturas existentes para tornar o processo mais eficiente e econômico.

Segundo Brandes, a primeira instalação operacional já está em funcionamento em Aarberg, na Suíça. A Índia faz parte de um conjunto de mercados estratégicos onde a empresa pretende replicar esse modelo, com o objetivo de alcançar volumes industriais de micoproteína voltados a aplicações em larga escala no setor de proteínas alternativas.

O modelo BioBlocks™ no centro da estratégia

O coração dessa abordagem é o BioBlocks™, plataforma proprietária de fermentação desenvolvida pela Planetary. Em vez de operar todas as unidades, a empresa licencia a tecnologia para seus parceiros.

A proposta permite instalar a produção de micoproteína de forma integrada às estruturas industriais já existentes. No caso da DBO, a intenção é licenciar o BioBlocks™ e implantar a capacidade produtiva dentro de uma de suas usinas de açúcar na Índia, explica Brandes.

De acordo com a Planetary, esse formato contribui para manter os custos de produção sob controle e reduzir a pegada física e ambiental das operações.

Aldi, competitividade de preço e a aposta nas carnes híbridas

Na Europa, a Planetary já demonstrou que sua micoproteína pode competir diretamente com a carne convencional em termos de preço. O lançamento do Aldi Gourmet Filet, por exemplo, chegou ao mercado com valor por quilo inferior ao do peito de frango tradicional, um feito relevante em um dos varejos mais sensíveis a preço do continente.

Atualmente, a empresa opera com margens brutas positivas e planeja reduzir ainda mais o custo de produção à medida que expande para outros mercados globais.

Essa competitividade sustenta a visão da Planetary de que as carnes híbridas — que combinam proteína animal e alternativa — representam uma das apostas mais promissoras no curto prazo. O mercado global de carne deve alcançar US$ 1,3 trilhão em 2026 e chegar a US$ 2 trilhões até 2032, mas os preços vêm subindo até 20% ao ano, pressionando consumidores e varejistas.

Com sabor neutro, textura fibrosa e perfil nutricional favorável, a micoproteína se encaixa bem como ingrediente funcional nesses blends, especialmente em produtos à base de frango e carne bovina.

Posicionamento estratégico no segmento de proteínas balanceadas

Ao focar nas carnes híbridas — também chamadas de proteínas balanceadas —, a Planetary opta por acompanhar uma mudança gradual no comportamento do consumidor europeu. Em vez de promover uma substituição total da carne, a estratégia aposta em uma transição incremental, guiada principalmente pelo preço e pela conveniência no ponto de venda.

Hoje, mais de 30% da carne moída vendida pelo LIDL na Bélgica já é híbrida, segundo Brandes. Ele destaca que a micoproteína contribui para produtos com menos gordura e sódio, melhor classificação nutricional (Nutri-Score A em vez de C) e uma pegada de carbono significativamente menor. Além disso, quando combinada com micoproteína produzida a baixo custo, é possível oferecer um produto equivalente ao frango convencional com desconto superior a 20%, sem comprometer sabor ou experiência sensorial.

Expansão para laticínios com proteína “de verdade”

Além das aplicações em carnes, a Planetary prepara sua entrada no mercado de alternativas aos laticínios. A empresa detém uma patente concedida para a produção de leite a partir de micoproteína, trazendo proteína e fibra reais para uma categoria frequentemente criticada por lacunas nutricionais.

A companhia também foi uma das vencedoras entre 55 participantes na competição de queijos vegetais organizada pelo LIDL Alemanha em parceria com a ProVeg, o que abriu novas oportunidades de inserção de seus produtos no varejo.

Embora ainda não tenha divulgado formatos, mercados ou datas de lançamento, a Planetary afirma que sua proposta para leite e queijo à base de micoproteína vai além da simples reprodução de sabor e textura, buscando elevar o valor nutricional da categoria.

Financiamento para escalar a fermentação industrial

Escalar operações de fermentação em nível industrial exige capital significativo, mas a Planetary afirma ter estruturado uma combinação de recursos próprios, subsídios e financiamentos não dilutivos. Registros públicos indicam uma rodada seed de 7,5 milhões de francos suíços, um investimento estratégico de 3 milhões de francos da cooperativa agroindustrial holandesa Cosun e uma subvenção de 1,8 milhão de francos da agência suíça de inovação Innosuisse, além de outros aportes não divulgados.

De acordo com Brandes, a empresa conseguiu financiar integralmente suas instalações industriais atuais por meio de instrumentos de dívida não dilutiva, reforçando sua estratégia de crescimento com disciplina financeira.

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