A Nestlé voltou a ser alvo de críticas por possíveis práticas de greenwashing. A gigante suíça de alimentos e bebidas anunciou sua saída da Dairy Methane Action Alliance, uma iniciativa que ela própria ajudou a fundar há dois anos, com o objetivo de reduzir as emissões de metano em suas cadeias de fornecimento de laticínios.
Em comunicado, a dona de marcas como KitKat e Nesquik afirmou que “revisa regularmente sua participação em organizações externas” e, por isso, “decidiu encerrar sua associação à aliança”. Nenhum motivo concreto foi apresentado para a decisão.
A Dairy Methane Action Alliance foi lançada durante a COP28, em Dubai, pela Environmental Defense Fund, com apoio de empresas como Bel Group, Danone, General Mills, Kraft Heinz, Lactalis USA e a própria Nestlé. O objetivo era acelerar a redução das emissões de metano — um dos gases de efeito estufa mais potentes — nas cadeias de produção de leite e derivados.
Segundo Nusa Urbancic, diretora da organização Changing Markets Foundation, que monitora práticas de greenwashing corporativo, “cortar rapidamente as emissões de metano é uma das medidas mais eficazes para frear o aquecimento global no curto prazo”. Para ela, a saída da Nestlé pode estar ligada à recente troca de liderança na companhia e levanta dúvidas sobre o comprometimento do novo CEO, Philipp Navratil, com as metas climáticas.
O papel do metano nas emissões da Nestlé
De acordo com a Changing Markets Foundation, o setor de laticínios responde por 37% das emissões totais da Nestlé, principalmente em função do metano liberado pelos rebanhos bovinos. Esse gás é gerado durante a digestão dos animais — um processo conhecido como fermentação entérica — e é 86 vezes mais potente que o CO₂ em termos de impacto climático ao longo de 20 anos.
A pecuária é a principal fonte de metano de origem humana, e a produção de leite representa uma parcela significativa desse total. Segundo a Danone, o setor lácteo é responsável por cerca de 8% das emissões globais de metano.
A Nestlé havia ingressado na aliança justamente para enfrentar esse desafio. Em 2023, chegou a reportar uma redução de quase 21% nas emissões de metano em comparação com 2018. Mesmo assim, a empresa deixou a iniciativa no mês passado, sem apresentar explicações claras. Em nota, apenas afirmou que “reconhece os esforços da aliança” e que continuará seguindo seu plano de ação climática e roteiro para atingir o net zero até 2050.
Histórico de controvérsias ambientais
A saída da aliança se soma a uma série de questionamentos sobre a coerência da Nestlé em relação às suas promessas ambientais. Em 2023, uma análise de seu plano climático indicou que a empresa não está alinhada às diretrizes da ONU para emissões líquidas zero e dificilmente atingirá as metas estabelecidas.
No mesmo ano, a multinacional anunciou um investimento de US$ 1,2 bilhão em agricultura regenerativa, focado apenas no segmento de café — deixando carne e laticínios de fora. Organizações como New Climate Institute (NCI), BiteBack 2030 e Planet Tracker criticaram a ausência de metas robustas e a dependência de créditos de carbono de baixa eficácia. Investigações mostraram que 36% dos créditos adquiridos pela empresa vinham de projetos considerados duvidosos.
A Nestlé também já foi acusada de publicidade enganosa ao afirmar que suas garrafas plásticas eram “100% recicladas”, o que foi contestado por grupos ambientais europeus. Na prática, os materiais utilizados nunca foram totalmente reciclados, e a possibilidade de reciclagem dependia de condições locais específicas.
Um padrão que se repete
Casos como esse não são isolados. Grandes corporações costumam fazer anúncios ambiciosos sobre sustentabilidade, apenas para abandoná-los discretamente depois. A Coca-Cola, por exemplo, foi acusada em 2024 de recuar na meta de usar 25% de embalagens reutilizáveis até 2030 — um movimento descrito por especialistas como “um exemplo clássico de greenwashing”.
No setor financeiro, fenômeno semelhante ocorreu com o encerramento da Net Zero Banking Alliance, após a saída de grandes bancos em meio ao retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. O novo governo tem revertido políticas ambientais e retirado novamente o país do Acordo de Paris, sinalizando uma guinada conservadora que influencia o comportamento corporativo global.
O futuro da Dairy Methane Action Alliance
Ainda não se sabe se a decisão da Nestlé provocará um efeito dominó. Por enquanto, empresas como Danone, General Mills, Bel, Lactalis e Starbucks afirmaram à Bloomberg que não pretendem deixar a aliança.
Entretanto, análises recentes mostram que a maioria das grandes companhias de laticínios e café — avaliadas em conjunto em US$ 420 bilhões — ainda carece de metas claras para redução de metano, planos de ação concretos e transparência nas emissões. Estudos indicam que as emissões globais de metano continuam crescendo, apesar dos compromissos assumidos de reduzi-las em 30% até 2030.
Para Urbancic, o caso da Nestlé evidencia um problema estrutural: “Compromissos voluntários são fáceis de anunciar e ainda mais fáceis de abandonar. Precisamos de regulação governamental efetiva para garantir que as promessas climáticas se traduzam em ações reais”.
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