Medicamentos para perda de peso, como Ozempic e Wegovy, vêm ganhando cada vez mais espaço no mercado de saúde e alimentação nos Estados Unidos. Paralelamente, cresce também a procura por alternativas naturais, sem fármacos, capazes de oferecer resultados semelhantes.
Esses remédios atuam imitando o hormônio GLP-1, liberado no intestino, que reduz o apetite, prolonga a sensação de saciedade e auxilia no controle da glicemia. O problema é que, junto aos efeitos positivos, eles trazem uma lista de efeitos colaterais que vai desde náuseas, vômitos e alterações no paladar até questões de saúde mental, como ansiedade e irritabilidade. Além disso, o custo é alto: um tratamento mensal com Ozempic pode ultrapassar US$ 1.000 nos EUA.
Esse cenário tem incentivado cientistas e startups a buscar opções mais seguras, acessíveis e sem medicamentos. Um exemplo promissor vem da Universidade de Sichuan, na China, onde pesquisadores desenvolveram microesferas comestíveis capazes de se ligar às gorduras no trato gastrointestinal. Em testes iniciais com ratos, a estratégia mostrou potencial para ser uma alternativa menos invasiva do que cirurgias ou fármacos.
Como foram desenvolvidas as microesferas
As esferas são feitas a partir de polifenóis do chá verde, vitamina E e algas marinhas. Sua ação lembra a do orlistate, medicamento aprovado pelo FDA que bloqueia a absorção de gordura no organismo, mas que pode causar sérios danos ao fígado e rins em alguns pacientes.
A proposta dos cientistas chineses foi justamente evitar esses riscos. “Queremos desenvolver algo que se encaixe na rotina alimentar das pessoas, sem causar efeitos adversos”, explicou Yue Wu, doutoranda envolvida no estudo.
A equipe conseguiu que os polifenóis do chá verde e a vitamina E se unissem quimicamente, formando pequenas esferas capazes de se ligar às gotículas de gordura. Para protegê-las do ambiente ácido do estômago, revestiram-nas com um polímero derivado de algas. Assim, ao chegar ao intestino, o revestimento se expande e libera os compostos que capturam a gordura parcialmente digerida, evitando sua absorção.
Resultados promissores em testes
Nos experimentos, ratos alimentados com uma dieta rica em gordura e que consumiram as microesferas perderam 17% do peso corporal em um mês. Já os que seguiram a mesma dieta, mas sem as microesferas, não apresentaram perda significativa. Além disso, esses animais tiveram menos gordura acumulada, menor dano hepático e maior eliminação de gordura nas fezes – sem os desconfortos gastrointestinais comuns em medicamentos como o orlistate.
Atualmente, o grupo de pesquisa conduz um ensaio clínico em humanos, com 26 voluntários, em parceria com o Hospital Oeste da China. Os primeiros resultados devem ser divulgados no próximo ano.
Um ponto interessante é que as esferas não têm praticamente sabor, o que facilita sua incorporação em diferentes alimentos. Os cientistas sugerem, por exemplo, que elas poderiam ser usadas como “pérolas” em chás com boba ou em sobremesas funcionais.
Segundo o professor associado Yunxiang He, também envolvido no projeto, a produção das esferas em escala industrial é viável, já que todos os ingredientes são de grau alimentício e aprovados pelo FDA. A equipe já trabalha junto a uma empresa de biotecnologia para avançar na fabricação.
A nova onda de alternativas alimentares ao GLP-1
As microesferas chinesas se somam a uma crescente lista de soluções baseadas em alimentos para substituir – ou complementar – os medicamentos à base de GLP-1. No ano passado, cientistas espanhóis identificaram extratos vegetais com potencial de serem usados em pílulas para emagrecimento. A chilena NotCo anunciou o desenvolvimento de um “booster” botânico de GLP-1, que pode ser adicionado a qualquer receita para estimular a saciedade.
No mesmo caminho, a israelense Lembas criou um peptídeo bioativo que ativa o GLP-1 do próprio organismo e pode ser incorporado em snacks, shakes, suplementos e bebidas. Já marcas como a Supergut apostam em fibras probióticas e amidos resistentes como reforço natural do GLP-1.
O movimento mostra que a busca por soluções plant-based e funcionais no campo da saúde vai muito além da alimentação tradicional. Agora, também está se firmando como alternativa real à farmacologia – abrindo espaço para inovações que unem bem-estar, ciência e sustentabilidade.
Leia também:
Reino Unido precisa reduzir consumo de carne para frear perda de biodiversidade
Nestlé desenvolve nova técnica para aumentar rendimento do cacau em meio à crise climática
Startups asiáticas se unem para criar cosméticos a partir de células cultivadas de peixe
Compartilhe:

