A demanda por carnes à base de plantas cresceu e continuará crescendo. O mercado de alternativas vegetais à carne encerrou 2020 avaliado em US$ 20,7 bilhões e deve crescer para US$ 23,2 bilhões até 2024. Os dados são da empresa de pesquisa de mercado Euromonitor.

O crescimento, que disparou em 2019, agora é estimulado por preocupações que vão desde o bem-estar animal até a segurança alimentar, protagonizado pela pandemia de Covid-19. Esta última, mostrou que uma pandemia sem cura obriga os consumidores a pensar em como se alimentar melhor e aumentar sua imunidade. Agora, mais produtos alternativos à base de vegetais estão aparecendo nas prateleiras dos supermercados em todo o mundo.

Ponto de inflexão

Num cenário onde as motivações para escolhas mais saudáveis e sustentáveis estão em alta, assim como, a inovação para o desenvolvimento de alternativas alimentares vegetais mais saborosas, podemos estar diante de um ponto de inflexão.

O impacto negativo do consumo massivo de carne animal para a saúde dos indivíduos e do planeta está cada vez mais claro. À medida que mais e mais pessoas tomam consciência do poder de suas escolhas para seu próprio bem-estar e para o futuro do planeta, as mudanças se acentuam.

Obstáculos e desafios para o mercado em expansão

Dentre os principais desafios para a expansão global do mercado de carnes à base de plantas estão:

  • Barreiras culturais;
  • Objeções da indústria da carne;
  • Preço/disponibilidade dos produtos para o consumidor.

Barreiras culturais

De acordo com um levantamento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE, o Brasil é o terceiro maior mercado consumidor de carne bovina do planeta. A crença de que o consumo de proteínas de origem animal é essencial, bem como, sinalizador de status social, ainda é arraigada na cultura brasileira.

A boa notícia é que, apesar de todo esse peso cultural que induz o consumo de carnes de animais, há mudanças em curso. De acordo com uma pesquisa feita pelo The Good Food Institute Brasil (GFI) e Ibope, metade dos brasileiros reduziu o consumo de carnes em 2020.

O resultado aponta que as barreiras culturais vêm sendo transpostas e o mercado de proteínas à base de plantas vem ganhando mais aderência no país.

Objeções para o mercado de carnes à base de plantas

No que se refere a objeções da indústria da carne, o cenário brasileiro segue a tendência dos Estados Unidos e da Europa e giram em torno da rotulagem de produtos. O uso de termos como “carne” e “leite” tem aquecidos os debates entre os legisladores.

Recentemente, o Parlamento Europeu votou contra uma moção que proibiria produtos alimentares à base de plantas e sem carne de terem nomes associados à carne. No entanto, as designações similares de produtos não lácteos à base de vegetais, como “queijo” ou “leite”, permanecem proibidas.

No Brasil, temos em tramitação o Projeto de Lei – 2876/2019, de autoria do deputado Nelson Barbudo (PSL-MT). O PL dispõe sobre a proibição do uso da palavra “carne” e seus sinônimos na rotulagem de alimentos vegetais, de modo similar à UE. Mas por enquanto, o mercado das carnes vegetais continua a crescer.

Preço/disponibilidade ao consumidor

De acordo com um estudo divulgado pela empresa Ingredion em parceria com a consultoria Opinaia, o principal fator de recusa à compra de alimentos plant based está relacionado aos elevados preços, em comparação com produtos de origem animal.

Neste contexto, o preço parece ser o maior obstáculo à expansão do consumo de carne à base de plantas. O que é válido tanto no varejo quanto no serviço de alimentação. Para atender ao PIB per capita brasileiro, os produtores precisariam tornar a carne vegetal mais acessível, o que teoricamente, seria possível com a produção em larga escala. Sendo assim, tudo indica que é questão de tempo.

Como se não bastasse ter que pagar mais caro, a distribuição ainda é limitada. Isso compromete a disponibilidade ao consumidor, principalmente fora dos grandes centros, mas não limitada a estes. Desse modo, apesar das cifras animadoras, ainda teremos décadas a percorrer, até que o mercado de carnes vegetais ao mínimo se iguale ao de carne animal, em preço e disponibilidade.

No entanto, não devemos nos esquecer de que cada pequena escolha importa. Cada grama a menos de produtos de origem animal em nossas mesas é uma conquista, que traz benefícios éticos, ambientais e de saúde pública. Nesse contexto é válido lembrar que 2020 nos trouxe excelentes resultados.

Enfim, 2020 foi um verdadeiro marco para o mercado de carnes à base de plantas. Agora, enquanto o mundo aquece os motores após a largada de 2021, esperamos por bons motivos para comemorar ainda mais o sucesso desse mercado. Por nós, pelos animais e pelo planeta.



por Nadia Ferreira Gonçalves em 4 de janeiro