A Índia acaba de dar um passo significativo para o futuro do setor de alimentos sustentáveis. Uma revisão ampla no sistema tributário do país reduziu os impostos sobre carnes e leites de origem vegetal, aproximando-os das proteínas animais no quesito preço e competitividade.

A decisão foi aprovada pelo Conselho do Imposto sobre Bens e Serviços (GST Council), após anúncio do primeiro-ministro Narendra Modi. Segundo ele, a reforma busca “melhorar a qualidade de vida de cada cidadão”. A medida impacta diversos segmentos, incluindo alimentos, cosméticos, eletrônicos, medicamentos e transporte. Entre os destaques, estão justamente os produtos plant-based, que passam a receber o mesmo tratamento fiscal dado a carnes e bebidas lácteas embaladas.

De 18% para 5%: um alívio para o setor vegano

Desde a criação do GST em 2017, bebidas vegetais como leite de soja e alternativas à base de castanhas pagavam 12% de imposto — algumas chegando a 18%. Já o leite de vaca fresco era isento, enquanto carnes animais tinham carga de 0% a 5%.

Com a nova regra, todas as carnes e leites vegetais passam a ser tributados em 5%, patamar que também se aplica agora a outros produtos de origem animal, como queijo, manteiga, ghee e embutidos. Até mesmo proteínas microbianas e leveduras nutricionais foram incluídas na redução.

Para Astha Gaur, especialista em políticas regulatórias do Good Food Institute India, a mudança tem caráter histórico:

“A redução substancial no GST deve ampliar o acesso a alternativas como laticínios vegetais e carnes à base de soja. Tornando-os mais acessíveis, o governo cria as condições para ampliar a base de consumidores — um desafio que sempre acompanhou o setor.”

Um mercado em expansão

A indústria plant-based na Índia enfrenta obstáculos como restrições de rotulagem e campanhas agressivas do setor lácteo tradicional, mas cresce de forma consistente. Entre 2021 e 2024, o mercado avançou 18% e, segundo a Ipsos, pode multiplicar-se por 18 na próxima década.

A tendência é impulsionada por fatores estruturais: 60% da população sofre de intolerância à lactose, e 37% dos consumidores querem incluir mais proteínas vegetais na dieta. Hoje, 43% dos indianos afirmam querer consumir mais carnes vegetais, enquanto apenas 36% demonstram interesse em aumentar o consumo de carne animal.

Ainda assim, o preço é um entrave: um em cada quatro consumidores considera que bebidas vegetais não oferecem bom custo-benefício. Por isso, a revisão do GST é vista como essencial para destravar o acesso.

Abhay Rangan, diretor de negócios da Senara e ex-CEO da marca One Good, destacou o esforço coletivo por trás da conquista:

“Essa mudança não caiu do céu. Foi fruto de anos de diálogo com o governo, representações constantes ao ministério das finanças e engajamento contínuo de startups e associações. É resultado direto do trabalho de um ecossistema que acredita no potencial da alimentação plant-based para o futuro do país.”

Uma vitória com impacto global

Para a Plant Based Foods Industry Association, representada por seu diretor-executivo Praveer Srivastava, trata-se de uma decisão “progressista”, alinhada a escolhas alimentares mais saudáveis, à sustentabilidade ambiental e ao fortalecimento de um dos setores mais promissores da economia indiana.

O debate sobre tributação não se limita à Índia. Em várias partes do mundo, subsídios governamentais ainda favorecem a pecuária em detrimento das alternativas sustentáveis. Alguns países europeus já avançaram rumo à paridade tributária, mas a discussão segue aberta. A iniciativa indiana, no entanto, envia uma mensagem clara: apoiar a transição para proteínas vegetais é investir em saúde, inovação e segurança alimentar.

Leia também:

Beyond Meat e Oatly desafiam estudantes chineses a criar os alimentos do futuro

FOOD FOUNDERS Studio capta US$ 1,36 milhão e lança foodtech focada em sabor

Greenitio capta US$ 1,5 milhão para impulsionar biopolímeros de cogumelos sem plástico

Compartilhe: