A palavra “flexitariano” vem ganhando espaço nas conversas sobre alimentação saudável e sustentável — mas até agora, nunca houve um consenso claro sobre o que exatamente esse termo representa. Um novo estudo publicado na revista Nutrients busca resolver essa lacuna ao propor uma definição baseada na análise de 62 pesquisas anteriores.
Segundo os pesquisadores, uma dieta flexitariana é aquela em que a pessoa consome carne, laticínios, ovos ou frutos do mar com frequência inferior a uma vez por semana, mas pelo menos uma vez por mês. Ou seja, trata-se de uma alimentação majoritariamente plant-based, mas que ainda inclui pequenas quantidades de alimentos de origem animal.
Esse modelo ganhou força nos anos 2000 e chegou ao grande público em 2010 com o livro The Flexitarian Diet, da nutricionista Dawn Jackson Blatner, que descreveu a abordagem como uma alimentação “quase vegetariana”. A proposta é ser uma alternativa acessível para quem deseja reduzir o consumo de carne sem adotar uma dieta totalmente vegetariana ou vegana.
Nem toda redução de carne é flexitarianismo
A análise também mostra que, na prática, o termo tem sido usado de formas bastante variadas — muitas vezes confundido com expressões como “semi-vegetariano”, “vegetariano flexível”, “reducetariano” ou “meat reducer”.
Na classificação sugerida pelo estudo, iniciativas como as populares segundas sem carne não se encaixam na definição técnica de flexitarianismo, já que ainda envolvem consumo de carne na maior parte da semana. Apesar disso, os autores reconhecem que até pequenas reduções no consumo de carne, como deixar de consumi-la um dia por semana, já contribuem significativamente para diminuir o impacto ambiental e melhorar a saúde pública.
A pesquisa também observou que, apesar do crescente interesse por dietas mais sustentáveis, nenhuma diretriz nutricional oficial entre os 42 países analisados usa o termo “flexitariano”. Algumas, no entanto, descrevem padrões alimentares muito próximos disso — como no caso do Sri Lanka, que cita uma dieta “semi-vegetariana” com foco em alimentos vegetais e consumo ocasional de proteínas animais em pequenas quantidades.
Diretrizes ao redor do mundo começam a se alinhar à transição proteica
Embora o termo flexitariano ainda não seja amplamente adotado em políticas públicas, muitos países já caminham nessa direção por meio de recomendações que incentivam a redução do consumo de carne vermelha ou o aumento da ingestão de vegetais.
A Espanha, por exemplo, sugere limitar a carne a três porções por semana. A Alemanha defende que 75% da alimentação seja baseada em vegetais. E o próprio Sri Lanka recomenda que dois terços das proteínas consumidas venham de fontes vegetais.
Outros países, como Austrália, Reino Unido, Japão, Índia e Holanda, também têm diretrizes que permitem uma abordagem flexitariana, mesmo que não a nomeiem dessa forma. Já na Arábia Saudita, o consumo de laticínios é recomendado diariamente, mas carne, ovos e leguminosas são agrupados como fontes proteicas intercambiáveis — o que abre espaço para escolhas mais vegetais.
Por outro lado, diretrizes de países como Albânia, Etiópia e Bangladesh ainda recomendam o consumo diário de carne, peixes, ovos e laticínios, o que dificulta a adoção de dietas com menor presença de produtos de origem animal.
Laticínios de origem vegetal ganham espaço em políticas alimentares
A boa notícia é que substitutos vegetais para laticínios estão começando a ser reconhecidos oficialmente em algumas regiões. Austrália, Nova Zelândia, os países nórdicos e o Reino Unido, por exemplo, já incluem bebidas vegetais fortificadas como alternativas nutricionalmente equivalentes aos laticínios tradicionais. Os Estados Unidos vão além, incorporando também iogurtes de soja enriquecidos às suas diretrizes alimentares.
O estudo conclui que, embora a redução de carne vermelha e frango seja uma recomendação mais comum e mais fácil de ser adotada, a inclusão de alternativas vegetais aos laticínios é um passo importante para tornar o flexitarianismo mais viável em diferentes contextos culturais e econômicos.
A pesquisa surge num momento em que cresce a pressão para que governos e organismos de saúde incentivem dietas mais sustentáveis. Países como Suíça, Finlândia, Portugal, Áustria, Noruega e os próprios Estados Unidos já sinalizam, em suas políticas, a necessidade de reduzir o consumo de carne e laticínios e aumentar a presença de alimentos de origem vegetal no prato do cidadão comum.
Leia também:
Opalia fecha sua primeira venda de leite cultivado e se prepara para captar US$ 4 milhões
Beyond deixa “Meat” no passado e aposta em proteínas vegetais integrais
Mewery capta €3,3 milhões em apoio público para escalar produção de carne cultivada
Compartilhe:

