Na indústria de energia, o conceito de “transição justa” significa substituir o carvão por fontes renováveis. No setor de alimentos, porém, a mudança é mais complexa: não se trata apenas de trocar um sistema por outro, mas de lidar com práticas culturais e estruturas sociais profundamente enraizadas.
Um estudo recente aponta que o caminho para uma transição justa na produção de proteínas envolve a combinação de diferentes estratégias – como agricultura regenerativa, carne cultivada e proteínas vegetais – somadas a uma redução acelerada da pecuária intensiva.
A pesquisa, publicada na revista Plos One, é resultado de quatro anos de colaboração entre a Federation University Australia e a Aleph Farms, produtora israelense de carne cultivada. O trabalho avaliou 13 sistemas de proteína sob 25 indicadores sociais, ambientais, econômicos e de governança, comparando desde modelos de pecuária intensiva a sistemas regenerativos, proteínas vegetais e carne cultivada produzida com energia convencional ou renovável.
Carne cultivada como vetor positivo da transição
A análise mostrou que os sistemas baseados em proteínas inovadoras, como a carne cultivada, apresentam impactos positivos em várias dimensões, superando boa parte das alternativas atuais.
Enquanto operações de confinamento animal (CAFOs) nos EUA receberam pontuação altamente negativa em capital natural – devido a emissões de gases de efeito estufa, uso intensivo de terras, poluição e resíduos –, a carne cultivada obteve resultados favoráveis, especialmente quando produzida a partir de energia renovável.
Além de reduzir significativamente impactos ambientais, como emissões e poluição da água e do ar, a carne cultivada também se destacou em aspectos sociais e de governança, como segurança no trabalho, capacitação de jovens e influência em políticas públicas.
No ranking geral, nove sistemas tiveram impacto positivo. A liderança ficou com a agricultura regenerativa, seguida da produção orgânica. A carne cultivada com energia renovável apareceu em quinto lugar, à frente da mesma produzida com energia fóssil. Já os sistemas baseados em proteínas vegetais receberam pontuação mais modesta, em parte devido ao cultivo intensivo de grãos e oleaginosas utilizados em produtos processados.
Os piores desempenhos foram registrados nos sistemas de confinamento animal, suinocultura industrial, produção de frango em gaiolas e pecuária bovina de pequena escala.
Como seria uma transição justa na prática
O estudo propôs cinco cenários possíveis, variando do “status quo” até uma transformação acelerada. No cenário de mudança rápida, a pecuária industrial encolheria para apenas 1% do mercado global até 2040, enquanto carne cultivada e proteínas vegetais dividiriam igualmente um terço do mercado de proteínas em 2050.
A agricultura regenerativa se consolidaria como peça central, com alto potencial de contribuir para um sistema alimentar mais justo, resiliente e sustentável – desde que desafios ligados a emissões, consumo de água e diversidade de rebanhos sejam endereçados.
Já no caso da carne cultivada, persistem preocupações sobre emissões líquidas, uso de energia e consumo hídrico. Ainda assim, os pesquisadores destacam que sua expansão poderia reduzir de forma relevante os impactos negativos da produção de proteínas no geral.
Riscos e oportunidades para o setor
Os autores também alertam que impactos negativos não resolvidos podem atrair respostas regulatórias severas, perda de confiança do consumidor e até fuga de investidores. Por isso, produtores de proteínas – incluindo pecuaristas – devem traçar estratégias de curto, médio e longo prazo para mitigar riscos e se adaptar à transição.
Este é o primeiro de uma série de relatórios desenvolvidos pela Federation University e pela Aleph Farms. Ele chega em um momento em que políticos nos EUA e na União Europeia discutem restrições e até proibições à carne cultivada, frequentemente sob o argumento de proteger agricultores. Curiosamente, muitos pecuaristas vêm demonstrando abertura à tecnologia e até se posicionando contra tais medidas restritivas.
O estudo reforça que a transição dos sistemas de proteína não será um simples “substituir um pelo outro”, mas sim uma reconfiguração profunda, que integra inovação, sustentabilidade e justiça social.
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