Com a pressão crescente para substituir corantes sintéticos na indústria de alimentos, uma startup europeia acaba de dar um passo importante rumo à comercialização de uma alternativa natural e mais sustentável.

A dinamarquesa Chromologics, sediada em Copenhague e especializada em fermentação de precisão para produção de corantes alimentares, anunciou uma nova rodada de €7 milhões (US$ 8 milhões). O investimento veio dos atuais apoiadores Novo Holdings e do fundo estatal EIFO, além dos novos parceiros Döhler Ventures, Collateral Good Ventures e Synergetic.

Com esse aporte, a empresa acumula US$ 21,7 milhões desde a fundação e avança na etapa de submissão regulatória de seu corante biofermentado Natu.Red — tanto junto à Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) quanto à FDA, nos Estados Unidos. O capital também será usado para ampliar a produção em parceria com um fabricante contratado de grande porte e para preparar o lançamento comercial.

Segundo Thomas Grotkjær, sócio da division Planetary Health Investments da Novo Holdings, a tecnologia da Chromologics já demonstra vantagens claras: “O pigmento vermelho desenvolvido pela empresa é realmente diferenciado, e o nível de maturidade tecnológica já coloca o produto em uma posição competitiva de custo, com margem para otimização.”

Fermentação de precisão para criar alternativas ao carmim

Criada em 2017 a partir de pesquisas da Universidade Técnica da Dinamarca, a Chromologics desenvolveu uma plataforma de fermentação de precisão voltada à produção de corantes naturais de maneira mais estável, escalável e financeiramente viável.

A técnica consiste em inserir sequências de DNA em microrganismos para que passem a produzir moléculas específicas durante a fermentação. No caso do Natu.Red, o foco é substituir o carmim — pigmento vermelho extraído tradicionalmente de insetos esmagados, como cochonilhas.

Os micróbios recebem açúcar e nutrientes enquanto fermentam em água, produzindo o pigmento sem gerar impactos associados à pecuária, agricultura intensiva ou cadeias sazonais de fornecimento. A empresa também opera de forma circular, reutilizando água e utilizando energia renovável.

O resultado é um corante natural estável a variações de pH e temperatura, sem sabor ou aroma, e aplicável em categorias diversas: panificados, confeitaria, snacks, bebidas e alternativas vegetais à carne. A Chromologics ainda desenvolve outro corante, o Sustainly.Red, destinado a indústrias como têxteis e cosméticos.

Para Gerit Tolborg, CEO e cofundadora ao lado do CTO Anders Ødum, o apoio renovado dos investidores demonstra confiança na proposta da empresa. “A biomanufatura é essencial para fortalecer cadeias de abastecimento de alimentos, e isso exige investidores que entendam o ritmo e a realidade da inovação. O Natu.Red já provou eficiência, escalabilidade, segurança e aderência ao mercado.”

Demanda por alternativas cresce com proibições aos corantes sintéticos

O novo investimento chega em um momento de virada para a indústria. Nos EUA, o movimento liderado por Robert F. Kennedy Jr. para reduzir aditivos sintéticos ganhou força, levando à proibição do Red Dye No. 3, derivado de petróleo e associado a riscos carcinogênicos em estudos.

A pressão por mudanças vem tanto de autoridades quanto dos consumidores: pesquisas indicam que dois terços dos americanos defendem a retirada de corantes artificiais. Grandes empresas de alimentos — como Nestlé, Mars, Kellogg’s e General Mills — já começaram a reformular produtos.

“Com o avanço das restrições a corantes sintéticos e as limitações das opções naturais disponíveis hoje, a Chromologics se destaca ao oferecer cores derivadas de fermentação, escaláveis, competitivas e realmente sustentáveis”, afirma Sara Sande, sócia da EIFO.

Nos últimos quatro anos, mais de 90 empresas da Europa e dos EUA já testaram o Natu.Red em aplicações reais, incluindo bebidas, confeitos e produtos plant-based. O mercado de corantes naturais — estimado em US$ 4,8 bilhões — atrai também outras startups, como Michroma, Phytolon, Exberry, Vetik e Material Futures Lab.

Para Rodrigo Hortega de Velasco, diretor da Döhler Ventures, a Chromologics reúne os elementos necessários para liderar essa transição: “A tecnologia de fermentação sustentável entrega estabilidade, escala e competitividade de custo, ajudando empresas a migrarem rapidamente para corantes naturais de alta qualidade, alinhados tanto às novas regulações quanto às expectativas do consumidor.”

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