A alemã Bluu Seafood, pioneira na produção de pescados cultivados a partir de células, acaba de firmar uma colaboração estratégica com a Van Hees, referência global em soluções de ingredientes e temperos para a indústria alimentícia. O objetivo da parceria é criar novos produtos híbridos, que combinem células cultivadas de peixe com ingredientes de origem vegetal.
Enquanto aguarda aprovações regulatórias em diferentes países, a Bluu aposta nessa união de forças para acelerar o desenvolvimento de alimentos mais sustentáveis e alinhados às exigências sensoriais do consumidor moderno. A Van Hees, que atua há quase 75 anos em mais de 80 países, traz para a mesa sua vasta experiência em ingredientes funcionais e tecnologia de alimentos.
“Acreditamos no potencial dos peixes cultivados como parte essencial de um futuro mais sustentável para as proteínas”, afirma Robert Becht, diretor-geral da Van Hees. “Essa parceria nos permite contribuir com inovação em um setor que está ajudando a transformar todo o sistema alimentar.”
Uma aposta nos produtos híbridos
O acordo se insere em uma tendência crescente no setor: os produtos híbridos, que combinam ingredientes de origem vegetal com uma pequena proporção de células cultivadas. Essa abordagem tem se mostrado uma das formas mais viáveis de introduzir proteínas cultivadas no mercado no curto prazo, já que permite reduzir custos e superar desafios de escala.
Nesse contexto, a expertise técnica da Van Hees será essencial. A empresa está trabalhando em conjunto com a Aromatech — especializada em tecnologia de aromas — e com o centro de competência Food.PreTect, focado em segurança alimentar e conservação, para aprimorar textura, sabor e estabilidade dos novos produtos à base de peixe cultivado.
Outras empresas já seguem por caminhos semelhantes, como a norte-americana Wildtype, que lançou um salmão cultivado combinado com ingredientes vegetais, hoje servido no restaurante Kann, em Portland. O modelo híbrido tem se consolidado como uma estratégia eficaz para aproximar o consumidor da categoria de carnes cultivadas.
Bluu Seafood mira mercado com trutas e salmões cultivados
Fundada em 2020 por Sebastian Rakers e Simon Fabich, a Bluu Seafood vem avançando na produção em escala e nas etapas regulatórias. No ano passado, inaugurou em Hamburgo a primeira unidade da Europa dedicada exclusivamente à produção de frutos do mar cultivados, com tanques de fermentação que devem atingir até 2.000 litros de capacidade.
Os primeiros lançamentos da empresa devem incluir almôndegas e empanados de peixe. Também estão em desenvolvimento cortes como sashimi de salmão e filés de truta arco-íris. A meta é clara: se as condições de mercado e escalabilidade forem favoráveis, a startup quer oferecer peixe cultivado a preços competitivos com o pescado convencional nos próximos três anos.
A estratégia de entrada no mercado será focada no food service, em parcerias com chefs renomados e restaurantes selecionados. O varejo virá em um segundo momento, com distribuição controlada e posicionamento premium.
Caminho regulatório e próximos passos
A Bluu está atualmente buscando aprovação regulatória em Singapura, nos Estados Unidos e em mercados europeus. Contudo, como os processos da União Europeia são mais complexos e lentos, a empresa considera iniciar a comercialização por países europeus fora do bloco, como o Reino Unido e a Suíça.
Nos bastidores, há movimentações importantes. A Comissão Europeia anunciou recentemente a intenção de criar um Biotech Act, voltado a acelerar aprovações de alimentos inovadores. A proposta inclui desde ferramentas de inteligência artificial para facilitar o cumprimento regulatório até “ambientes de teste regulatório” — os chamados regulatory sandboxes.
Para Sebastian Rakers, a colaboração com uma empresa sólida como a Van Hees representa um avanço estratégico. “De um lado, temos a Bluu como pioneira na tecnologia de cultivo celular de peixe; do outro, uma empresa com décadas de experiência no desenvolvimento de alimentos. É uma combinação com grande potencial para criar soluções saborosas e sustentáveis para o futuro da alimentação.”
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