A nova Estratégia para as Ciências da Vida na Europa, anunciada pela Comissão Europeia, traz uma sinalização clara: a inovação alimentar está no centro dos planos para transformar o bloco em um líder global em biotecnologia até o fim da década. Entre os destaques, estão €350 milhões em oportunidades de financiamento voltadas ao desenvolvimento de tecnologias como fermentação de precisão e biomassa, que podem acelerar a transição para sistemas alimentares mais sustentáveis.

O foco da estratégia está em viabilizar a produção de novos ingredientes alimentares por meio de processos tecnológicos avançados, com menor impacto ambiental e baseados em matérias-primas renováveis. Essa visão tem potencial para posicionar a Europa como um polo de referência em alternativas à proteína animal.

Fermentação no centro da inovação

Dois processos ganham protagonismo no plano europeu:

Fermentação de biomassa, técnica semelhante à usada na produção de tempeh, que transforma subprodutos agrícolas em alimentos nutritivos, reduzindo desperdícios e gerando ingredientes com textura e sabor semelhantes à carne;

Fermentação de precisão, já usada há décadas na produção de coalho para queijos, e agora aplicada por startups e pesquisadores europeus para criar proteínas como o soro de leite, além de alternativas sustentáveis ao óleo de palma e aos compostos do chocolate.

Apesar da inovação acelerada, o desafio está na escalabilidade. Produzir esses alimentos em larga escala ainda é caro e complexo, o que limita sua chegada ao mercado. Por isso, a Comissão propõe parcerias público-privadas e eventos anuais para fomentar a colaboração entre cientistas, empreendedores e investidores.

Recursos e apoio estratégico para o ecossistema

Além do apoio institucional, a estratégia traz compromissos concretos de investimento:

€150 milhões via Horizon Europe para fomentar soluções sustentáveis na bioeconomia, com foco direto na ampliação da produção de alimentos via fermentação;

€200 milhões adicionais entre 2026 e 2027, também pelo Horizon Europe, para aproximar a academia da indústria e promover tecnologias em biomanufatura, inclusive no setor de proteínas alternativas;

Criação de uma agenda estratégica para pesquisa e inovação em sistemas alimentares, com foco em desafios como sabor, textura, custo e acesso aberto à ciência.

Essas medidas visam destravar o potencial das PMEs e startups europeias, que lideram a inovação, mas ainda esbarram em barreiras de financiamento e infraestrutura.

Impactos econômicos e ambientais

Segundo relatório divulgado no início do ano, se apoiadas com políticas públicas adequadas, as proteínas alternativas — incluindo as produzidas por fermentação — podem gerar até €65 bilhões para a economia alemã até 2045, além de criar 250 mil novos empregos. Outro dado promissor: uma leve diversificação da produção de proteínas já permitiria liberar até 21% das terras agrícolas do bloco para cultivo orgânico ou produção alimentar local.

Informação, ciência e percepção pública

A estratégia também reconhece a necessidade de melhorar a comunicação científica sobre alimentos ultraprocessados (UPFs). Estudos conduzidos pelo Good Food Institute Europe (GFI Europe) e pela Physicians Association for Nutrition (PAN International) indicam que a desinformação sobre UPFs pode estar afastando o público de opções mais sustentáveis, como carnes vegetais — apesar dos benefícios comprovados para a saúde cardiovascular, intestinal e metabólica.

União política e avanço regulatório

Para Lea Seyfarth, responsável de políticas públicas do GFI Europe, a estratégia mostra que a Europa começa a alinhar ciência, política e inovação em direção a um novo modelo alimentar. “É animador ver a Comissão reconhecer o papel central da inovação na transformação dos sistemas alimentares e propor ações para alavancar o conhecimento europeu em tecnologias como fermentação”, afirma.

Com a próxima presidência do Conselho da União Europeia sob liderança da Dinamarca — país que já defende abertamente o uso da biotecnologia na alimentação —, cresce o impulso político em torno de soluções inovadoras. “Essa estratégia é um passo importante para que a UE assuma um papel de liderança global nas proteínas alternativas, estimulando o crescimento econômico e reduzindo a dependência de importações”, conclui Seyfarth.

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