Uma pesquisa recente do Euroconsumers mostrou que, quando o assunto é segurança alimentar, os europeus confiam mais nos agricultores (27%) do que em varejistas ou grandes empresas privadas (11%). Esse dado ajuda a explicar por que os produtores rurais têm um papel central no avanço da carne cultivada: afinal, são eles os mais impactados por essa transformação.

Foi justamente essa percepção que deu origem ao Consórcio Craft (Cellular Revolution in Agriculture and Farming Technology), iniciativa que pretende instalar, na Holanda, a primeira fazenda de carne cultivada do mundo. O projeto já recebeu €2 milhões – metade de um financiamento solicitado de €4 milhões – cofinanciado pelo acelerador EIT Food, ligado à União Europeia. A proposta é descentralizar a produção e oferecer aos agricultores novas possibilidades de diversificação.

O consórcio reúne nomes de peso: RespectFarms, Wageningen University & Research, as foodtechs Mosa Meat, Aleph Farms e Multus, a empresa de agricultura sustentável Kipster e a especialista em design de instalações Royal Kuijpers.

“Estamos traduzindo um desafio global para a escala da fazenda. Se funciona aqui, pode funcionar em qualquer lugar. Nosso objetivo é exportar tecnologia, e não animais”, afirma Ralf Becks, cofundador da RespectFarms.

Como funcionaria uma fazenda de carne cultivada

A ideia é integrar a carne cultivada às fazendas reais, com os agricultores no comando e aproveitando recursos locais. A produção aconteceria lado a lado com a pecuária tradicional e o cultivo de grãos, criando sistemas alimentares mais resilientes e sustentáveis.

Segundo o professor René Wijffels, da Universidade de Wageningen, esse modelo mantém a inovação próxima da base da produção de alimentos:

“É essencial aproveitar recursos locais e fluxos de resíduos, garantindo que a inovação caminhe junto com a prática agrícola.”

Na prática, estábulos podem ser adaptados para abrigar módulos de produção de carne cultivada. Isso permite que os agricultores produzam mais proteína com menos animais, sem necessidade de abate e reduzindo riscos de doenças que afetam tanto rebanhos quanto consumidores.

Peter Verstrate, cofundador da Mosa Meat, resume o impacto: “É a primeira vez que agricultura tradicional e celular se unem. O resultado promete ao consumidor o melhor dos dois mundos: carne real, produzida e vendida localmente.”

Sustentabilidade como motor da mudança

O sistema alimentar atual não dá conta do crescimento populacional e ainda responde por grande parte das emissões globais. Já a carne cultivada pode reduzir em até 78% o consumo de água, 95% a demanda por terra, 92% as emissões e 56% os custos sociais ligados à produção de proteína animal.

“Precisamos encontrar formas de alimentar o mundo respeitando os limites do planeta e oferecendo futuro também aos agricultores. A fazenda de carne cultivada é exatamente isso”, afirma Ruud Zanders, cofundador da Kipster e da RespectFarms.

Agricultores como protagonistas

Enquanto em alguns países a carne cultivada enfrenta tentativas de proibição sob o argumento de proteger produtores rurais, muitos agricultores já reconhecem nela uma oportunidade. No Reino Unido, por exemplo, as preocupações giram mais em torno do impacto social e da concentração de mercado em grandes corporações do que de uma ameaça direta à renda no campo.

Na prática, a produção depende justamente da agricultura. Os meios de cultivo utilizam açúcares, minerais e insumos agrícolas que vêm de lavouras – o que abre novas frentes de rentabilidade para pequenos e médios produtores.

Esse potencial foi reconhecido pela própria União Europeia ao financiar o Consórcio Craft. Para Neta Lavon, cofundadora e CTO da Aleph Farms:

“Esse apoio nos permite abrir caminho para a produção em escala de fazenda, oferecendo aos agricultores modelos viáveis, resilientes e sustentáveis, alinhados à visão de uma Europa mais saudável e justa.”

Já Ira van Eelen, cofundadora da RespectFarms, aposta até na educação como parte da mudança: “Quero ver livros infantis contando a história divertida da ‘Célula Feliz’ que vira almôndega. É literalmente ‘comida para pensar’.”

Com esse projeto pioneiro, a Europa mostra que é possível unir tradição e inovação para redesenhar o futuro da proteína – e coloca os agricultores no centro dessa transformação.

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