Novo sistema de avaliação comparou 20 fontes de proteína e colocou os alimentos vegetais nas primeiras posições, enquanto produtos de origem animal ocuparam as últimas colocações.
Um novo estudo publicado na revista científica Frontiers in Sustainable Food Systems colocou o tofu no topo de um ranking que busca responder uma pergunta cada vez mais relevante para consumidores e para a indústria de alimentos: afinal, qual é a melhor fonte de proteína quando levamos em consideração não apenas seu valor nutricional, mas também seu impacto ambiental e sua acessibilidade?
O trabalho foi desenvolvido pelo cientista comportamental Chris Macdonald, fundador do Better Protein Institute e pesquisador ligado à Universidade de Cambridge. Para realizar a comparação, Macdonald criou o chamado BPI Score, um sistema que analisou 20 alimentos ricos em proteína a partir de diferentes critérios relacionados às pessoas e ao planeta.
O resultado chama atenção: o tofu terminou em primeiro lugar, com 36 pontos de um máximo possível de 40.
Mais do que a vitória de um único alimento, porém, os resultados mostram uma vantagem significativa das proteínas vegetais. Entre os alimentos com as melhores pontuações estavam tofu, sementes de chia, feijão e quinoa. Já entre as últimas posições apareceram exclusivamente produtos de origem animal, incluindo muçarela, cordeiro, carne bovina e queijo cheddar.
O que o ranking levou em consideração?
Um dos diferenciais da proposta é justamente tentar ir além da quantidade de proteína presente em determinado alimento.
O BPI Score foi dividido em dois grandes grupos de critérios: People Score, relacionado às pessoas, e Planet Score, relacionado ao impacto ambiental.
Na avaliação ambiental foram considerados fatores como emissões de gases de efeito estufa, poluição da água, uso de terra e consumo de água.
Já na dimensão relacionada às pessoas, o modelo considerou fatores nutricionais como gordura saturada, sódio e colesterol, além de características como presença dos aminoácidos essenciais, preço e disponibilidade do alimento.
A proposta é oferecer uma visão mais ampla sobre o que significa considerar uma fonte de proteína “boa”. Afinal, dois alimentos podem oferecer proteína, mas gerar impactos completamente diferentes quando todo o sistema necessário para produzi-los é analisado.
Tofu lidera também na sustentabilidade
Foi justamente na dimensão ambiental que a diferença entre algumas fontes de proteína se tornou especialmente evidente.
Segundo os dados utilizados pelo estudo, para produzir o equivalente a 100 gramas de proteína, o tofu utiliza aproximadamente 2,16 m² de terra, enquanto a carne bovina demanda cerca de 211 m².
Isso significa que, nesse indicador, a utilização de terra associada à carne bovina é quase 100 vezes maior.
A diferença também aparece nas emissões de gases de efeito estufa. O estudo aponta aproximadamente 0,61 kg de CO₂ equivalente para cada 100 gramas de proteína proveniente do tofu, contra 64,19 kg de CO₂ equivalente para a mesma quantidade de proteína proveniente da carne bovina.
No Planet Score, que poderia chegar a 16 pontos, o tofu conquistou a pontuação máxima.
Proteínas vegetais dominam as primeiras posições
Talvez uma das conclusões mais importantes do levantamento não esteja apenas no primeiro lugar.
Quando os pesquisadores observaram os 20% de alimentos com melhor desempenho geral, todos eram fontes vegetais de proteína: tofu, chia, feijão e quinoa.
O inverso aconteceu na parte inferior do ranking. Os 20% com as menores pontuações eram todos produtos de origem animal: muçarela, cordeiro, carne bovina e cheddar.
O padrão também apareceu quando saúde e acessibilidade foram analisadas separadamente. Nessa categoria, tofu, feijão, lentilha e chia ocuparam as melhores posições.
Os dados reforçam uma mudança importante na discussão sobre proteínas. Durante décadas, grande parte do debate nutricional esteve concentrada na quantidade de proteína ou em sua composição de aminoácidos. Hoje, pesquisadores começam a incorporar questões como impacto climático, utilização de recursos naturais, saúde pública e acessibilidade econômica.
E a qualidade da proteína vegetal?
Uma dúvida ainda comum é se proteínas vegetais conseguem fornecer os aminoácidos necessários ao organismo.
No próprio sistema criado por Macdonald, alimentos considerados fontes de todos os nove aminoácidos essenciais receberam pontos adicionais. O tofu está entre as proteínas vegetais que atendem a esse critério.
Além disso, a ideia de que proteínas vegetais seriam necessariamente “incompletas” vem sendo questionada por pesquisadores da área de nutrição. Alimentos vegetais contêm os aminoácidos essenciais em diferentes proporções e, dentro de uma alimentação variada e com quantidade adequada de proteína, é possível atender às necessidades do organismo.
O ranking ainda tem limitações
O próprio autor reconhece que essa é apenas a primeira versão do BPI Score.
Entre as limitações está o fato de a análise de preço e disponibilidade utilizar dados do Reino Unido, o que significa que os resultados relacionados à acessibilidade não podem ser automaticamente reproduzidos em países como o Brasil.
Além disso, fatores importantes ainda ficaram fora da metodologia.
Uma próxima versão do sistema deverá incorporar questões como bem-estar animal, resistência antimicrobiana e risco de doenças zoonóticas. Segundo o autor, a inclusão desses elementos poderá ampliar ainda mais a diferença observada entre proteínas vegetais e produtos de origem animal.
Também é importante destacar que o trabalho é apresentado como um artigo de perspectiva científica e propõe um novo modelo de avaliação. Portanto, o BPI Score deve ser entendido como uma metodologia em desenvolvimento, e não como uma classificação definitiva e universal de todos os alimentos.
Uma discussão que vai muito além do tofu
O resultado traz uma reflexão especialmente relevante para o mercado plant-based.
Durante muito tempo, produtos vegetais precisaram responder principalmente à pergunta: “eles conseguem entregar proteína suficiente?”
A evolução da ciência e do próprio mercado está ampliando essa discussão.
A pergunta passa a ser: qual é a maneira mais eficiente de produzir e consumir proteína considerando simultaneamente nutrição, preço, disponibilidade e impacto ambiental?
Nesse cenário, alimentos relativamente simples e já amplamente disponíveis, como tofu, feijão e lentilha, aparecem com vantagens importantes.
Para uma população mundial que deverá demandar cada vez mais proteína nas próximas décadas, encontrar fontes capazes de entregar nutrição utilizando menos terra, emitindo menos gases de efeito estufa e permanecendo economicamente acessíveis pode se tornar uma das questões centrais do futuro da alimentação.
E, pelo menos nesta primeira versão do BPI Score, um alimento consumido há milhares de anos terminou na frente de todos os outros: o tofu.
Fonte: estudo What are the best sources of protein? Introducing the BPI Score, de Chris Macdonald, publicado em julho de 2026 na revista Frontiers in Sustainable Food Systems.
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