Desde o início da pandemia, o mercado de bebidas ricas em proteína cresceu de forma acelerada: o número de produtos disponíveis aumentou 122%. Embora os shakes tradicionais ainda dominem essa categoria, um novo formato de bebidas funcionais começa a ganhar espaço e disputar a preferência dos consumidores.
Para muita gente, os shakes proteicos são pesados, difíceis de digerir e causam sensação de estufamento. Já as bebidas proteicas claras e os chamados protein shots surgem como uma alternativa mais leve e prática, entregando altas doses de proteína em volumes menores e de fácil consumo.
Esse movimento explica por que empresas como Nestlé, Pure Genius e Marks & Spencer passaram a investir nos protein shots, fortalecendo um mercado que já movimenta cerca de US$ 1,4 bilhão e deve dobrar de tamanho na próxima década.
Apesar do crescimento, o segmento enfrenta desafios importantes. A maioria desses produtos utiliza whey protein, uma proteína eficiente do ponto de vista funcional, mas com alto custo ambiental. A indústria de laticínios responde por aproximadamente 4% das emissões globais de gases de efeito estufa. Além disso, o whey vem enfrentando escassez em diversas regiões, resultado de uma demanda crescente frente a uma oferta limitada — cenário que pressiona preços e compromete a estabilidade do fornecimento.
Para contornar esse problema, a startup holandesa Vivici aposta na fermentação de precisão. A empresa utiliza microrganismos geneticamente modificados para produzir whey por meio da fermentação, criando uma proteína bioidêntica à beta-lactoglobulina convencional, mas sem a necessidade de vacas. A tecnologia permite equilibrar oferta e demanda, ao mesmo tempo em que reduz impactos ambientais.
A Vivici fornece esse ingrediente para fabricantes interessados em diferentes aplicações, sendo os protein shots a aposta mais recente. Segundo a empresa, o whey obtido por fermentação pode destravar todo o potencial das bebidas proteicas compactas, pensadas para o consumo rápido e em movimento.
Alta dose de proteína em poucos goles
Para produzir sua proteína recombinante, a Vivici recorre à fermentação de precisão, técnica que consiste em inserir sequências de DNA em microrganismos para que eles passem a produzir moléculas específicas durante o processo fermentativo.
O foco inicial é a beta-lactoglobulina, principal proteína do soro do leite. Ela apresenta propriedades de gelificação, emulsificação e formação de espuma, além de conter todos os aminoácidos essenciais. Outro diferencial é sua cor clara e sabor neutro, características fundamentais para bebidas funcionais.
Comercializado sob o nome Vivitein BLG, o ingrediente pode compor até 50% da formulação de produtos como substitutos de refeição, bebidas funcionais, barras nutricionais e alternativas a laticínios. Também é aplicável em sobremesas, confeitaria, recheios, panificação e até em análogos de carne, peixe e ovos.
No formato de protein shot, o Vivitein BLG permite entregar 25 gramas de proteína completa em apenas 100 ml, com elevados níveis de aminoácidos de cadeia ramificada (BCAAs) e leucina. A formulação garante baixa viscosidade, textura leve e perfil ácido compatível com sabores frutados, sem a necessidade de açúcar ou aditivos funcionais.
Além disso, os shots são estáveis em temperatura ambiente, não contêm lactose — embora não sejam indicados para pessoas com alergia a proteínas do leite — e oferecem ganhos ambientais expressivos: 66% menos emissões, 86% menos consumo de água e 61% menos uso de terra em comparação à beta-lactoglobulina convencional.
Conquista da Geração Z no radar
A Vivici aposta que o novo formato pode conquistar a Geração Z, especialmente porque 31% desse público baseia suas escolhas alimentares diárias na conveniência. Ao mesmo tempo, 74% dos jovens já demonstram atenção ao teor de proteína na alimentação.
Em publicação recente, a empresa destacou que os protein shots despontam como um dos principais vetores de crescimento das bebidas funcionais. Para a Vivici, esse formato redefine a forma como a proteína se encaixa na rotina: deixa de ser uma obrigação e passa a ser um momento funcional, sem depender de horários ou rituais fixos.
A startup acredita que as marcas mais bem-sucedidas serão aquelas capazes de unir inovação e estilo de vida, desenvolvendo bebidas funcionais centradas no consumidor e alinhadas aos valores da nova geração.
A empresa já obteve autorização para comercialização nos Estados Unidos após receber uma carta de “nenhuma objeção” da FDA no ano passado. Isso permite que fabricantes utilizem o Vivitein BLG e lancem produtos no mercado imediatamente, o que representa uma vantagem competitiva relevante.
A Vivici não está sozinha nessa corrida. A francesa Verley, que também produz beta-lactoglobulina sem animais por fermentação de precisão e já conta com aprovação da FDA, definiu bebidas prontas para consumo e protein shots como seus primeiros formatos comerciais.
Cada vez mais empresas de proteínas alternativas reconhecem o potencial de bebidas leves e transparentes. A Beyond Meat, referência global em carnes vegetais, anunciou recentemente sua entrada nesse mercado com a linha Beyond Immerse, composta por bebidas proteicas gaseificadas.
Além dos protein shots, a Vivici também fornece seu whey sem origem animal para bebidas claras em maior volume, snacks prontos para consumo e pós para preparo. Atualmente, a empresa trabalha em parceria com a americana The Every Company e com o Abu Dhabi Investment Office na implantação de uma unidade industrial de proteínas inovadoras em escala comercial na capital dos Emirados Árabes Unidos.
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