A islandesa ORF Genetics acaba de captar €5 milhões (US$ 5,8 milhões) em uma nova rodada de investimento. O aporte, que contou com acionistas já existentes e novos parceiros, será usado para ampliar significativamente sua capacidade de produzir proteínas especializadas por meio da chamada agricultura molecular – insumos essenciais para a fabricação de carne cultivada.

“Estamos em um momento decisivo”, afirmou a CEO Berglind Rán Ólafsdóttir. “Esse financiamento garante que a ORF esteja preparada para atender a uma onda iminente de oportunidades comerciais e sustentar nossa próxima fase de crescimento.”

Como a ORF transforma cevada em proteínas para carne cultivada

A tecnologia central da empresa está no uso da agricultura molecular: em vez de modificar microrganismos ou células animais, como ocorre na fermentação de precisão, a ORF adapta células vegetais para que produzam proteínas idênticas às de origem animal. Essas proteínas podem ser extraídas de folhas ou sementes.

O sistema próprio da empresa, chamado Orfeus, utiliza a cevada como plataforma de produção em larga escala. O processo começa com a identificação do código genético da proteína-alvo, que é inserido em um vetor de expressão chamado GrainVec. Em seguida, embriões jovens de cevada passam por cultivo de tecidos, gerando plantas bioengenheiradas robustas, que crescem em um sistema hidropônico automatizado até estarem prontas para a colheita.

A partir daí, as linhas de cevada com maior rendimento são selecionadas e multiplicadas, garantindo eficiência e escala.

Mesokine: a linha de fatores de crescimento da ORF

Com essa tecnologia, a ORF desenvolveu um portfólio de fatores de crescimento livre de endotoxinas chamado Mesokine, voltado especificamente para carne cultivada. Esses extratos de sementes de cevada reproduzem fatores de crescimento de vacas, suínos, aves e espécies marinhas, além de conter proteínas vegetais que aumentam a estabilidade e a bioatividade das moléculas.

O Mesokine já é utilizado por algumas das principais foodtechs globais. Entre os clientes está a australiana Vow, que lançou codorna cultivada em restaurantes de Singapura e Austrália. A ORF também colabora com a sul-coreana SeaWith, que pretende obter aprovação regulatória e lançar frutos-do-mar cultivados ainda este ano. Em fevereiro, as duas empresas promoveram uma degustação pública de mariscos cultivados em Reykjavik, que contou com a presença de autoridades islandesas.

Planos de expansão

Agora, a empresa quer multiplicar sua capacidade de produção: a meta é crescer 14 vezes até 2027 e 10 mil vezes até 2032. Para viabilizar esse salto, a ORF está ampliando a rodada de captação, buscando chegar a €7 milhões até o fim de outubro.

“Queremos atrair novos investidores que compartilhem da visão de construir uma empresa com posição estratégica em um mercado de crescimento extraordinário”, destacou Ólafsdóttir.

A ORF se junta a um grupo de startups que vêm explorando a agricultura molecular para revolucionar a produção de proteínas, entre elas Moolec Science, Alpine Bio, PoLoPo, Mozza, Miruku, Tiamat Sciences, Bright Biotech e NewMoo.

Com essa rodada, a Islândia entra de vez no mapa da inovação em carne cultivada – e mostra que até mesmo culturas agrícolas tradicionais, como a cevada, podem ganhar novos significados na construção do futuro da alimentação.

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