Quase três anos após sair do modo stealth e atravessar um período marcado por altos e baixos, a startup californiana Omeat inicia um novo capítulo. Com sede em Los Angeles, a empresa passa a se chamar Evergreen Connect e acaba de anunciar a captação de US$ 6 milhões em uma rodada aberta, com a participação de investidores como S2G Investments, BOLD Capital Partners, Good Startup, entre outros.
Com esse aporte, o volume total captado pela companhia chega a US$ 46 milhões. O novo capital será direcionado para acelerar a entrada da carne cultivada no mercado, aproximando essa tecnologia do prato do consumidor. A Evergreen já trabalha em parceria com distribuidores de carne nos Estados Unidos e em Singapura, com foco na comercialização de carne moída bovina híbrida, e afirma estar em estágio avançado nos processos regulatórios em ambos os mercados.
“A Evergreen vai fornecer carne bovina fresca, 100% carne de verdade, para produtores e atuar junto a eles para chegar ao consumidor final”, afirma James Miller, CEO da empresa. “Nosso foco é tornar o fornecimento mais robusto. Ao garantir qualidade e preços previsíveis em escala, ajudamos nossos parceiros a construir cadeias de suprimento mais resilientes e a manter a carne acessível para o consumidor”, completa.
Superando crises internas para enfrentar a volatilidade da cadeia da carne bovina
A empresa foi fundada em 2021 pelo engenheiro de tecidos Ali Khademhosseini e ganhou visibilidade dois anos depois ao apresentar uma alternativa ao soro fetal bovino (FBS), insumo amplamente utilizado no cultivo celular. A solução desenvolvida utilizava plasma regenerativo coletado de forma ética de vacas criadas soltas em uma fazenda com balanço de carbono negativo. O método, realizado semanalmente, é semelhante à doação de plasma em humanos e não causa exaustão aos animais, já que o plasma se regenera rapidamente.
Na sequência, a startup lançou o Plenty, um suplemento para meios de cultura celular descrito como escalável e financeiramente viável. No entanto, cerca de um ano depois, a empresa enfrentou uma crise profunda: reduziu sua equipe em 80% e passou por uma troca de liderança, em meio a relatos de uma cultura organizacional considerada hostil.
Khademhosseini deixou o cargo, dando lugar a James Miller. A operação chegou a funcionar com apenas dez colaboradores. Ex-funcionários relataram dificuldades na ampliação do processo produtivo, que ainda estaria sendo validado em escala de 200 litros, apesar da aquisição de biorreatores de 2.000 e 10.000 litros.
Agora, a Evergreen dá sinais claros de retomada. Segundo a empresa, o novo investimento reflete um foco mais preciso em oferecer estabilidade a uma indústria bovina historicamente marcada por oscilações.
Nos Estados Unidos, por exemplo, os preços da carne bovina vêm batendo recordes sucessivos desde março de 2025, alcançando US$ 6,68 por libra em dezembro. O rebanho bovino do país caiu para o menor nível em 70 anos, resultando em escassez de oferta — cenário agravado pelo aumento da demanda por proteína associado à popularização de medicamentos da classe GLP-1.
Uma pesquisa recente mostrou que 48% dos norte-americanos reduziram o consumo de carne bovina devido aos aumentos de preço, enquanto 12% deixaram de consumir completamente. Se a tendência de alta continuar, 72% afirmam que pretendem reduzir ainda mais o consumo, e quase metade consideraria retirar a carne bovina da lista de compras.
“Tenho orgulho da equipe por manter o foco e a disciplina, e sou grato aos parceiros e investidores que acreditam que o futuro da alimentação será construído com consistência e confiança, não com promessas vazias”, escreveu Miller em uma publicação no LinkedIn.
Carne híbrida como estratégia para trazer previsibilidade ao setor
De acordo com a Evergreen, a nova identidade consolida uma estratégia clara: tirar a carne cultivada do campo da curiosidade tecnológica e posicioná-la como uma solução estrutural, capaz de fortalecer a cadeia de abastecimento da carne bovina, hoje afetada por choques de oferta, variações bruscas de preço e dificuldades de previsão.
“O maior problema da proteína animal hoje não é falta de inovação, é falta de previsibilidade”, afirma Miller. “Na Evergreen, a estabilidade é o nosso produto. Construímos a empresa com base em uma consistência radical: qualidade consistente, custos consistentes, sabor e textura consistentes, além de uma execução confiável. É isso que transforma ceticismo em confiança e oportunidade.”
A aposta da empresa está na chamada carne híbrida, que combina carne cultivada com proteína animal convencional. Essa abordagem tem sido a porta de entrada mais comum da carne cultivada no mercado, como demonstram iniciativas já lançadas por empresas como Wildtype (salmão), Mission Barns (carne suína) e Good Meat (frango).
Ao trabalhar diretamente com distribuidores tradicionais, a Evergreen simplifica a logística, amplia o alcance junto aos consumidores habituais de carne e mantém o custo da carne cultivada mais baixo do que seria possível em um produto 100% celular. Além disso, a estratégia evita o afastamento da pecuária convencional, permitindo que produtores diversifiquem portfólio e fontes de receita.
Segundo a startup, sua plataforma de carne bovina cultivada pode ser integrada de forma fluida aos processos já existentes da indústria, por meio de produtos híbridos que ajudam clientes a lidar melhor com a volatilidade, estabilizar preços e planejar com mais segurança.
Esse posicionamento parece ter chamado a atenção dos investidores em um ano particularmente difícil para o setor. Nos nove primeiros meses de 2025, as empresas de carne cultivada atraíram apenas US$ 36 milhões em investimentos, valor inferior ao que a própria Evergreen captou sozinha em sua rodada Série A, em 2022.
“Em um ano em que o capital foi extremamente seletivo, a Evergreen se destacou pela disciplina operacional, foco regulatório e um caminho claro para o mercado”, afirma Kevin Lo, sócio da S2G Investments. “Ao priorizar parcerias, a empresa posiciona a carne cultivada como uma solução prática para fortalecer a cadeia existente da carne bovina.”
Parte dos recursos captados será destinada aos processos de diligência exigidos para a aprovação regulatória, que a empresa espera obter em breve. Esse esforço é reforçado pela presença de Eric Schulze, ex-regulador da FDA, que assumiu no último ano os cargos de CSO e CTO.
“Nós fazemos carne para quem gosta de carne e para quem processa carne, sem recorrer a proteínas vegetais como substituição”, afirma Schulze. “Trabalhamos lado a lado com pecuaristas e produtores para entregar produtos saborosos, com a qualidade, escala e custo que o mercado espera.”
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