Da caseína livre de laticínios às carnes cultivadas em pó e proteínas fermentadas a partir de levedura de uva, a Coreia do Sul vem se destacando como um dos polos mais promissores em inovações de proteínas sustentáveis.
Agora, o país ganha um novo impulso com a parceria entre o Good Food Institute (GFI) Ásia-Pacífico, organização sem fins lucrativos que atua no fomento às proteínas alternativas, e o World FoodTech Council, entidade que reúne mais de 3.300 membros e sediará a World FoodTech 2025 Conference, em Seul, ainda neste mês.
O acordo de cooperação (MoU) prevê ações conjuntas para fortalecer políticas regulatórias voltadas a novos alimentos, incentivar a pesquisa e o desenvolvimento locais e criar caminhos para a formação de novos talentos científicos — aproximando profissionais de diferentes áreas da construção do setor de alimentos do futuro.
Representatividade internacional e o papel da Coreia do Sul
“Há mais de uma década, a Coreia do Sul investe proporcionalmente mais em pesquisa e desenvolvimento científico do que qualquer outro país da Ásia — um diferencial que agora está sendo canalizado para transformar o país em uma potência de proteínas alternativas”, afirma Mirte Gosker, diretora-geral do GFI Ásia-Pacífico.
Ela destaca que, assim como a região asiática foi pioneira ao reconhecer o potencial das energias renováveis para atender à crescente demanda global, o mesmo movimento está acontecendo com as proteínas sustentáveis. “Cada país precisará encontrar formas inovadoras de produzir mais carne usando menos recursos — e a Ásia, mais uma vez, está liderando esse caminho”, completa.
Apesar dos avanços, a Coreia do Sul ainda enfrenta desafios para integrar sua expertise às discussões internacionais. No evento AltProtein Asia, realizado no Bezos Centre for Sustainable Protein, em Singapura, especialistas de vários países da região compartilharam soluções para superar gargalos técnicos ligados a sabor, escala e custo. A ausência de representantes coreanos, no entanto, chamou atenção — algo que o GFI pretende mudar nos próximos encontros.
“Nosso país abriga um dos ecossistemas tecnológicos mais avançados da Ásia, com dez polos de biotecnologia e manufatura, dezenas de startups de proteínas alternativas e o maior número de pesquisadores per capita do mundo”, comenta Yeonjoo La, líder de startups da GFI na Coreia, que também está à frente da criação do escritório local da instituição.
“Conectar cientistas, formuladores de políticas e especialistas coreanos com parceiros internacionais é uma oportunidade única de acelerar o desenvolvimento de carnes vegetais e cultivadas, ampliar o intercâmbio regulatório e gerar um impacto coletivo muito maior do que qualquer iniciativa isolada poderia alcançar”, acrescenta.
Apoio governamental e investimentos crescentes
Essa colaboração chega em um momento de forte engajamento do governo sul-coreano com o setor de proteínas sustentáveis. O Ministério da Segurança Alimentar e Medicamentos (MFDS) já estabeleceu uma estrutura regulatória específica para aprovar novos alimentos desse tipo.
Em 2024, o Ministério dos Oceanos e Pesca anunciou um investimento de ₩29 bilhões (US$ 21 milhões) em pesquisas sobre frutos do mar plant-based e cultivados. No mesmo período, a província de Jeolla do Norte revelou planos para inaugurar, em 2026, um Centro de Apoio à Pesquisa em Food Tech, totalmente dedicado a proteínas de origem vegetal.
O GFI Ásia-Pacífico também firmou uma parceria com a Korea Biotechnology Industry Organization e seu Comitê de Indústria de Alimentos do Futuro, que reúne 33 empresas do setor. O objetivo é ampliar estudos de mercado, coordenar políticas de regulação para novos alimentos, promover capacitação e realizar workshops conjuntos sobre inovação em proteínas alternativas.
Outro marco importante foi a Lei de Promoção da Indústria de Food Tech, sancionada pelo governo federal em 2024 e que entra em vigor em dezembro. A medida busca impulsionar a economia nacional por meio da integração entre tecnologia e produção de alimentos, gerando empregos e melhorando a qualidade de vida da população.
Além disso, o condado de Uiseong recebeu aprovação para construir um Centro de Apoio à Pesquisa em Food Tech de 2.660 m² voltado ao desenvolvimento de carnes cultivadas, com investimento público de ₩14,5 bilhões (US$ 10 milhões). A inauguração está prevista para 2027. O prédio ficará ao lado do atual Centro de Apoio à Indústria de Cultura Celular, dentro de uma zona especial na província de Gyeongsang do Norte, criada para agilizar a aprovação de novos alimentos e reduzir barreiras regulatórias.
Alinhando esforços globais para o futuro da alimentação
A parceria entre o GFI Ásia-Pacífico e o World FoodTech Council reforça essa agenda de transformação. O conselho tem como foco o desenvolvimento de padrões globais, sistemas de certificação e cooperação internacional em tecnologias emergentes de alimentos.
“O food tech enfrenta alguns dos maiores desafios do nosso tempo — desde o crescimento populacional e as mudanças climáticas até a saúde pública na era da inteligência artificial”, explica o professor Ki Won Lee, copresidente do World FoodTech Council. “Em colaboração com o GFI, queremos posicionar o K-food-tech como protagonista no sistema alimentar do futuro e como força motriz dessa indústria em transformação.”
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