A MycoWorks, uma das empresas pioneiras no desenvolvimento de couro sustentável a partir de micélio, inicia um novo capítulo de sua trajetória. A startup, sediada em Denver (EUA), foi adquirida pela DFX Corp, empresa especializada em investimentos e reestruturações estratégicas, em um movimento que marca uma virada importante para o negócio.
Avaliada em cerca de US$ 300 milhões, a MycoWorks construiu sua reputação com base em uma tecnologia proprietária que utiliza fungos para criar materiais que substituem o couro animal. Agora, sob a liderança de Daniel Frydenlund, da DFX Corp, a empresa passa por uma reorganização interna com foco em crescimento, eficiência operacional e consolidação no mercado.
Nesse novo momento, Maud Ohler amplia sua atuação como vice-presidente sênior de tecnologia, assumindo um papel central no desenvolvimento e na comercialização da plataforma Fine Mycelium. Os fundadores Philip Ross e Sophia Wang seguem envolvidos, apoiando a equipe e contribuindo com a visão estratégica que acompanha a empresa desde sua origem.
Em publicação no LinkedIn, Ross destacou que a parceria com a DFX representa uma mudança necessária na estrutura de liderança e nas operações da MycoWorks. Segundo ele, o objetivo é sustentar a próxima etapa de crescimento, mantendo o compromisso que sempre guiou a empresa.
Como a MycoWorks transforma micélio em couro
Fundada em 2013, a MycoWorks desenvolve alternativas ao couro tradicional a partir do micélio — a estrutura semelhante a raízes dos fungos. O material é cultivado por meio de fermentação em estado sólido, utilizando insumos como serragem reciclada, calcário e farelo de trigo. Após a inoculação com cepas específicas de fungos, formam-se mantas de micélio que podem ser colhidas e tratadas de maneira semelhante às peles animais em curtumes.
A tecnologia Fine Mycelium é o grande diferencial da empresa. Trata-se de um processo exclusivo que orienta o crescimento das células do micélio para criar estruturas interligadas, garantindo maior resistência, durabilidade e desempenho. Cada folha é cultivada sob condições rigorosamente controladas e recebe um código único, o que permite à MycoWorks acompanhar e ajustar o material de acordo com as especificações desejadas por designers e marcas.
O principal produto da empresa é o Reishi, um material que reproduz a resistência, a durabilidade e o toque do couro animal de alta qualidade, mas com impacto ambiental significativamente menor. O acabamento é realizado em curtumes tradicionais da Europa, utilizando tecnologias próprias de curtimento e tingimento livres de cromo.
O Reishi já foi aplicado em bolsas, calçados, vestuário e mobiliário, em colaboração com marcas como Hermès, St Allen e Ligne Roset. A empresa também desenvolveu materiais especiais em parcerias com a Cadillac, da General Motors, e com a própria Hermès.
Aquisição acontece após reestruturação em meio a desafios do setor
Apesar de estar entre as startups mais capitalizadas do setor de biomateriais — com US$ 187 milhões captados junto a investidores como Natalie Portman, John Legend, Ginkgo Bioworks e General Motors — a MycoWorks enfrentou obstáculos importantes no processo de escalar sua tecnologia.
Em novembro do ano passado, a empresa encerrou as atividades de sua unidade na Carolina do Sul, resultando na demissão de parte da equipe. A decisão marcou uma mudança de foco: a MycoWorks deixou de cultivar seu próprio micélio e passou a adquiri-lo de fornecedores externos, concentrando esforços no aprimoramento da tecnologia de curtimento Rei-Tan.
Na ocasião, o CEO Matthew Scullin explicou que a planta era ambiciosa e inovadora, mas que os custos operacionais se mostraram inviáveis no cenário econômico atual. Ele ressaltou que, embora a equipe tenha superado desafios técnicos relevantes, como contaminações e perdas de rendimento, o modelo não se sustentava financeiramente. Scullin também apontou que o ambiente de investimentos mudou drasticamente nos últimos anos, afetando diversas empresas de biotecnologia, alimentos, agricultura e couro alternativo.
Com a aquisição pela DFX Corp, a MycoWorks busca agora gerar valor no longo prazo, fortalecer sua estabilidade operacional e aprofundar parcerias baseadas em valores compartilhados. Paralelamente, Maud Ohler e sua equipe trabalham em uma nova evolução do Reishi, com foco em ampliar desempenho, versatilidade e possibilidades criativas.
Por que o couro sustentável é urgente
A produção convencional de couro é intensiva em consumo de água e energia, além de estar associada ao desmatamento, à perda de biodiversidade e ao uso de substâncias químicas perigosas no processo de curtimento, com impactos diretos na saúde humana. O couro sintético, por sua vez, também apresenta problemas relevantes: geralmente deriva de plásticos, pode levar de 20 a 500 anos para se decompor e responde por cerca de 3,4% das emissões globais.
Diante desse cenário, cresce o número de startups que buscam alternativas mais sustentáveis. Além da MycoWorks, a Ecovative também aposta no micélio, enquanto a Uncaged Innovations utiliza proteínas extraídas de subprodutos de grãos. Já empresas como Faircraft e Qorium exploram o desenvolvimento de couro cultivado a partir de células.
O movimento sinaliza uma transformação em curso na indústria de materiais, impulsionada pela inovação, pela urgência climática e pela demanda por soluções alinhadas a um futuro mais sustentável.
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