A foodtech canadense Maia Farms, com sede em Vancouver, está dando um novo passo em sua trajetória ao reforçar uma proposta que vai além da inovação alimentar: colocar a saúde pública no centro do seu modelo de negócios a partir de 2026. A empresa, conhecida por desenvolver ingredientes à base de cogumelos, resume esse movimento como a transição “da fazenda para a farmácia”.

Por meio de processos de fermentação, a startup produz farinhas de cogumelo-ostra e proteínas texturizadas de micélio com alto valor nutricional. Versáteis, esses ingredientes podem ser aplicados em diferentes categorias, como alternativas à carne, proteínas híbridas, massas, pães e produtos de confeitaria.

Para sustentar seu crescimento, a Maia Farms acaba de captar 3,75 milhões de dólares canadenses (cerca de US$ 2,7 milhões) em uma rodada seed acima do esperado, liderada pela Active Impact Investments, com participação de Nya Planet, Ag-West Bio, PIC Investment Group e Deep Checks. Com isso, o total levantado pela empresa chega a C$ 8,8 milhões (US$ 6,3 milhões), considerando aportes de capital e recursos não dilutivos.

Segundo o cofundador e CEO Gavin Schneider, os recursos serão direcionados à expansão comercial, fortalecimento da equipe, aumento da escala produtiva e ampliação do laboratório de pesquisa. “A demanda pelos nossos ingredientes cresce rapidamente. Precisamos de mais parceiros de coprodução e de um time interno preparado para sustentar esse ritmo”, afirma. Ele também antecipa o lançamento de um novo portfólio de ingredientes especiais que complementam os produtos já premiados da empresa.

Para Mike Winterfield, sócio-gestor da Active Impact Investments, a Maia Farms já mostrou que consegue criar ingredientes por meio de fermentação e extrusão que superam alternativas convencionais em custo, nutrição e sabor. “Vemos um enorme potencial para a empresa influenciar o futuro da produção e do consumo de alimentos em escala global”, destaca.

Presença crescente ao lado de grandes marcas

Fundada em 2021 por Schneider, Ashton Ostrander e Sean Lacoursiere, a Maia Farms desenvolveu e patenteou dois processos principais de produção. O primeiro é um método de extrusão a seco que gera ingredientes texturizados de cogumelos estáveis em prateleira, chamados de Maia Form. O segundo é um processo de fermentação de baixo custo e alto rendimento para produzir uma polpa úmida de micélio puro, batizada de Maia Fresh.

Essas tecnologias já foram escaladas em diferentes locais da América do Norte, posicionando a empresa como fornecedora diversificada de ingredientes para fabricantes de alimentos com demandas variadas. Atualmente, a capacidade instalada permite a produção de até 200 mil quilos por meio de parceiros industriais. Com novos investimentos, a ideia é replicar os processos em outras regiões do mundo, reduzindo prazos de entrega e custos logísticos.

Nos últimos 12 meses, os ingredientes da Maia Farms estiveram por trás do lançamento de mais de 20 produtos na América do Norte. Eles já aparecem em sopas, chili, curries, linguiças tipo chorizo, misturas de temperos, bowls de burrito e, em breve, até em cookies. “Estamos desenvolvendo produtos com marcas amplamente conhecidas, que querem colocar novidades nas prateleiras ainda este ano”, conta o CEO.

Em termos de custo, a empresa afirma que consegue entregar uma porção de 113 gramas (4 oz) por um valor inferior ao da carne bovina ou do frango moído. “Desde o início, buscamos um produto atraente em sabor, textura e viabilidade econômica — e chegamos lá”, resume Schneider.

O crescimento mais expressivo no último ano veio da categoria de refeições prontas para aquecer e consumir. Ainda assim, a atuação da empresa já se estende a segmentos que vão de sorvetes a cookies com gotas de chocolate. “A Maia se consolidou como referência em como integrar cogumelos a produtos alimentícios”, afirma.

Uma visão além da proteína

Dentro da iniciativa Nourish Life Mission, a Maia Farms também lançou, em parceria com o Banco de Alimentos da Grande Vancouver, uma opção de prato principal acessível. Além disso, uniu-se à Phytokana Ingredients em um projeto de US$ 24 milhões apoiado pela Protein Industries Canada, voltado ao reaproveitamento de subprodutos do feijão-fava como insumo para seus meios de fermentação.

De acordo com Schneider, os testes mostraram que o processo pode se tornar ainda mais eficiente em custo e gerar um produto final superior. Parte dos novos recursos será usada para ampliar a capacidade de testar resíduos agrícolas em escala comercial.

O micélio vem ganhando destaque no ecossistema de proteínas alternativas por seu baixo impacto climático e alto valor nutricional. Os extrudados de micélio da Maia Farms, combinados com proteína de ervilha, alcançam um PDCAAS de 0,92 e oferecem 66 gramas de proteína a cada 100 gramas de produto.

Em dezembro, a empresa foi reconhecida como Melhor Solução para Carne, superando concorrentes consolidados. “Mas não nos vemos apenas como fornecedores de proteína. Os cogumelos entregam benefícios nutricionais e funcionais muito mais amplos, que os consumidores estão buscando”, ressalta Schneider.

O executivo projeta que, no próximo ano, a empresa avance ainda mais nessa lógica de “farm to pharmacy”, trabalhando com parceiros que colocam a saúde no centro das escolhas alimentares. A Maia também prepara o lançamento de uma linha de ingredientes especiais à base de micélio, com funcionalidades específicas para a indústria. “Pequenas quantidades de micélio, aplicadas da forma certa, podem gerar impactos muito além do mercado tradicional de proteínas”, explica.

Ao falar sobre o futuro, Schneider resume a filosofia da empresa: “Nossa história — um agricultor, um engenheiro e um neurocientista vencendo uma competição de alimentos para o espaço — cria conexão imediata. Não somos contra alimentos de origem animal, nem contra plantas. Somos food-first e planet-forward”.

Ele conclui destacando que a Maia Farms combina agilidade, tecnologia e uma abordagem humana. “Temos um time excepcional, um modelo de negócios alinhado à realidade da indústria e, acima de tudo, produtos que os clientes realmente querem. Essa é a tração que mais importa.”

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