Aquecimento global, pressão sobre o clima, falta de água, fome mundial são apenas alguns temas que têm contribuído para um maior grau de aumento na consciência de jovens e adultos bem posicionados na escala social e/ou que se preocupam verdadeiramente com a melhoria real de sua qualidade de vida

Sem sombra de dúvida é sabido, sem qualquer misticismo mais, que os assuntos ligados ao meio ambiente já são pacificados como urgentes e relevantes para buscar minimizar os impactos que o próprio homem vem causando sobre o planeta. 

Em 2013, a FAO, agência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, publicou um relatório que aponta a criação de gado como a principal responsável de emissão de gases de efeito estufa, com 14,5% desses, principalmente através da emissão do gás metano, tendo um impacto de 25% a maior do que do dióxido de carbono. Em 2014, foi ao ar o famoso documentário Cowspiracy acusando a agropecuária intensiva de esgotar os recursos naturais do planeta e as organizações ambientalistas de ignorar o fato. De lá para cá o debate vem se acirrando no mundo e principalmente no Brasil ao longo dos últimos anos, onde agora se discute a questão da adoção de técnicas de manejo e sustentabilidade, bem como um maior controle do desmatamento na região amazônica.

Entretanto, a real mudança se encontra mesmo com as futuras gerações e entre os jovens atuais, os millennials. O veganismo entre jovens é uma realidade. No Canadá, por exemplo, 12% desses jovens entre 18 e 34 anos se declaram vegetarianos. E são justamente eles, que cresceram a par da crise ecológica mundial, que não aceitam virar as costas para o meio ambiente e que hoje fazem valer suas vozes, criam seus veículos de mídia, debatem o tema e inspiram o mundo de maneira transparente, natural e autêntica, desvinculada da forma como sempre abordou a mídia tradicional. 

Como o veganismo é muito vinculado a uma filosofia de vida própria, exigindo vontade, interesse e disposição para que o hábito realmente se instale no ser, costuma-se apregoar que os consumidores estão dispostos a colocar seu dinheiro onde está seu coração e, portanto, onde estão seus ideais. Os vegetarianos e veganos estão cada vez mais exigentes com a alimentação e, assim, dispostos a desembolsar um pouco mais para que essa seja mais saudável e natural. 

Dessa forma, cabe às marcas veganas, ou àquelas que estão se tornando, estabelecer um canal de absoluta transparência de linguagem com seu público, especialmente com os jovens e principalmente no que contém seu produto afeto à composição, em como são feitos eventuais testes, sobre como ele pode ser melhor aproveitado, enfim, em educar o consumidor e mostrar que a ideia, para si e para a coletividade, vale o investimento.

A pesquisa Brasil Food Trends 2020, em uma de suas vertentes, que vem a ser a de saudabilidade e bem-estar na alimentação, aborda os nichos do segmento, seus dados sobre faturamento e público-alvo, além de casos de sucesso e ações recomendadas, a saber:

  • R$ 93,6 bilhões movimentados em 2016 no Brasil;
  • 12,3% como média de crescimento ao ano no Brasil;
  • 8% como média de crescimento em outros países;
  • 5º lugar no ranking mundial do segmento;
  • Orgânicos como o nicho com maior crescimento em 5 anos (18,5%).
  • Cinco nichos principais desse segmento, a conhecê-los abaixo

Com base nos resultados dessa pesquisa, foi possível subdividir o segmento de alimentos saudáveis em cinco nichos:

  • Produtos com acréscimo de ômega 3 e cálcio (farinhas, pães, biscoitos, iogurtes) – R$ 36.332 bilhões;
  • 100% naturais (frutas, grãos, castanhas, hortaliças) – R$ 37.654 bilhões;
  • Sem Glúten, sem lactose e sem açúcar (pães, bolos, iogurtes, queijos) – R$ 1.027 bilhões;
  • Orgânicos certificados (frutas, grãos, castanhas, hortaliças) – R$ 227 bilhões;
  • Outros Produtos – R$ 18.360 bilhões

Já a pesquisa Tendências do Consumidor elaborada conjuntamente entre os Institutos Nielsen, Kantar Worldpanel, GfK e Ibope e apresentada na 33ª edição da APAS Show em maio de 2017, restou traçado o perfil do consumidor de alimentos e bebidas saudáveis:

  • Mulheres e consumidores de maior idade priorizam hábitos alimentares mais naturais e saudáveis;
  • Focam mais na ausência de componentes nocivos (aditivos, conservantes, corantes, etc) do que efetivamente na existência de componentes benéficos (vitaminas, ingredientes naturais, etc);
  • Alimentos mais procurados – ricos em proteína, de origem orgânica e livre de transgênicos;
  • Bebidas mais procuradas – chás, chás gelados, iogurtes/smoothies e bebidas energéticas.

O relatório da Mintel Tendências em Alimentos e Bebidas 2017 destaca que, infelizmente ainda no Brasil, a motivação pelo consumo de alimentos saudáveis tende a ser maior por exigência médica do que efetivamente por automotivação. O relatório também aponta que quase dois terços (64%) dos brasileiros adultos nos grupos socioeconômicos D e E comeriam mais alimentos saudáveis devido a dietas restritivas, do que em razão do desejo de levar um estilo de vida saudável. Ou seja, fica evidente que é essencial o esclarecimento desde cedo, através de campanhas de educação nutricional nas escolas e complementando para os pais nas empresas, com uma melhor merenda escolar onde já se começam a desenvolver os hábitos saudáveis e campanhas de conscientização públicas, com cartilhas a serem entregues nos postos de saúde e com os médicos de família sobre como substituir alimentos calóricos, como biscoitos, achocolatados, produtos industrializados e afins por mais frutas, legumes e verduras que além de mais saudáveis, são mais baratos para essas parcelas D e E da sociedade.

A maior dificuldade atualmente diz respeito à rotina muito corrida que faz com que as pessoas não contem com muito tempo para se alimentar e acabem optando por uma alimentação pouco saudável fora de casa ou, ainda, pela compra de alimentos preparados e congelados, pobres em nutrientes e nada saudáveis.

Além de tudo isso, vale lembrar que o número de obesos no país também chama atenção, pois, um em cada cinco brasileiros está acima do peso, segundo dados do Ministério da Saúde. 

Pensando em todo esse contexto e para ajudar os estabelecimentos não especializados a oferecer opções para este público e também para os vegetarianos, bem como para pessoas com restrições aos ingredientes de origem animal, como o leite de vaca, a Sociedade Vegetariana Brasileira lançou em 2016 o Programa Opção Vegana. A organização presta uma consultoria gratuita para os comerciantes interessados, com receitas, dicas de implementação de novos produtos e divulgação. No site da SVB há também um guia gratuito para quem quer desenvolver, lançar e divulgar suas opções veganas. 

A mudança para o veganismo nem sempre é assim tão encantadora justamente pela falta de estímulo do entorno ou de seu próprio interesse individual. Outras tantas vezes, por desconhecimento do quanto realmente é gostoso tentar e prosseguir. Em pesquisa realizada em 2017 com público não vegano, ficou clara a dificuldade que aquele que “flerta” com o estilo ou que o novo vegano sente relativamente a seu próprio bloqueio. A ver:

  • 40,4% – se sensibiliza com o sofrimento animal, mas alega não conseguir se adaptar à dieta
  • 31,3% – gosta de carne
  • 26,3% – reconhece os valores, mas tem dificuldade com a adoção de novos hábitos
  • 23,5% – alega ser caro o veganismo
  • 22,4% – acha pouco prático

Tendências apontadas na feira Summer Fancy Food, promovida pela Specialty Food Association e lá levantadas pelo Sebrae-SP que participou do evento, já demonstram, porém, que tudo caminha em outra direção, rumo a um futuro bem mais promissor:

  • Personalização – ferramenta que, por meio de um questionário e por uso de inteligência artificial, identifica o perfil alimentar individual, tornando possível a escolha dos alimentos em um painel para depois fazer a entrega do escolhido segundo o gosto personalizado;
  • Superfoodschamados de alimentos funcionais, são ricos em nutrientes e podem ser também industrializados. Á frente, tornará tudo bem mais prático e rápido.
  • Praticidade – além da alimentação saudável, a praticidade é uma necessidade. Com essa lógica, um dos produtos apresentados foi a sopa fria que vem apresentada em garrafas ao estilo de sucos para serem servidas geladas;
  • Produtos free – alimentos livres de glúten, lactose, açúcar, alergênicos, etc;
  • Embalagens verdadeiras – rótulos mais visíveis e verdadeiros, com a presença das certificações nas embalagens significando maior valor agregado ao produto.

Não é só a comida humana que passou a ter suas novas versões veganas, mas também os animais de estimação, que foram presenteados com sua nova marca de ração, a BichoGreen, do e-commerce de produtos de origem vegetal, cruelty free, Vegpet. Em 2018, a marca investiu em uma nova linha de ração 100% vegetal, baseada em uma versão europeia e com o apoio de uma equipe nutricional e de veterinários. A BichoGreen foi lançada aproximadamente em março e conta com uma versão para cachorro e uma para gato.

E assim, já vale pensar que ao invés de agressores passamos a cuidadores, mudando o conceito da cadeia. O que será que virá à frente? O que poderá trazer a tecnologia através de uma interação mais inteligente entre homem e animal, sem agressões, mas em prol da nutrição e da boa sobrevivência de ambas as espécies? Um futuro vegano? A refletir.

Conheça também as principais tendências de alimentos veganos para 2019. 



por Adriana Fernandes em 25 de dezembro