O fenômeno vegano deu vida à uma potente indústria que já vale bilhões de dólares. Isso inclui leite e queijo vegetal, alternativas à carne bovina, frango, peixe, porco, cosméticos, produtos de higiene pessoal, limpeza e até couro feito de plantas. 

A oferta pública inicial Beyond Meat Inc. enfatizou o otimismo sobre uma nova “economia vegana”. A promessa está enraizada não apenas nos consumidores que optam por cortar carne e laticínios por razões éticas, mas também pelas crescentes fileiras de veganos preocupados com sua saúde e a do planeta.

O que motiva essa economia

Em novembro de 1944, o inglês Donald Watson designou o termo “vegan” para vegetarianos que evitam qualquer produtos envolvido com a exploração de animais, e co-fundou a Vegan Society. Desde então, o número de veganos cresceu exponencialmente, e hoje só no Brasil estima-se que 7 milhões de pessoas o sejam, segundo dados de pesquisa IBOPE. 

Apesar de a preocupação com o bem-estar animal ainda ser um fator importante para reduzir a ingestão de carne, a saúde humana e ambiental estão entre as principais razões. Numerosos estudos apontam para os benefícios de uma alimentação baseada em plantas, incluindo risco reduzido de doenças cardíacas e alguns tipos de câncer. 

Por sua vez, a preocupação com o planeta é uma motivação cada vez mais forte. Evitar carne e laticínios é uma das maneiras mais eficazes de reduzir o impacto ambiental, de acordo com um estudo de 2018 da revista Science. Isso ocorre porque o desmatamento e a agropecuária respondem por 23% das emissões de gases de efeito estufa responsáveis pelo aquecimento global. 

A perda da vegetação, por sua vez, faz o planeta absorver cada vez menos o CO2 em excesso na atmosfera, minando ainda mais sua capacidade de combater mudanças climáticas. A criação de animais de fazenda também contribui enormemente com o desmatamento, o que reduz a capacidade da Terra de absorver dióxido de carbono. 

Quais os argumentos?

Prevenir a exploração de animais não é a única razão para se tornar vegano, mas para muitos continua sendo o fator chave na decisão. Especificidades à parte, evitar produtos de origem animal é uma das maneiras mais óbvias de defender a crueldade e a exploração animal em todos os lugares. 

Simultaneamente, dietas veganas bem planejadas e saudáveis contêm todos os nutrientes que o corpo humano precisa. Renomados órgãos de nutrição e dietética internacionais reconhecem que dietas à base de plantas são adequadas para todas as idades e estágios da vida. Ainda, pesquisas ligaram as dietas veganas à menor pressão sanguínea e colesterol, e taxas mais baixas de doenças cardíacas, diabetes tipo 2 e alguns tipos de câncer.

E uma das coisas mais eficazes que um indivíduo pode fazer para diminuir sua pegada de carbono é evitar todos os produtos de origem animal. Isso vai muito além do problema da flatulência de vacas indefesas!

O que não faltam são motivos para o fortalecimento da economia vegana, sinais otimistas para o futuro incluem os enormes investimentos em alimentos à base de plantas por grandes e tradicionais empresas e indústrias de carne e laticínios. 

Somado a isso, temos os avanços em tecnologia que melhoraram substancialmente o sabor dos alimentos à base de plantas, tornando-os mais atraentes. Os defensores da substituição da carne argumentam que, gostem ou não, os seres humanos terão que mudar radicalmente suas dietas para evitar as mudanças climáticas. 

Ainda, uma pesquisa de 2018 publicada na revista Nature estima que, até 2050, o consumo de carne nos países ocidentais deve cair 90% para manter as temperaturas globais sob controle. Eles observam que a pressão nos sistemas alimentares é exacerbada pelas previsões de que haverá uma população superior a 2 bilhões de pessoas para alimentar dentro de três décadas.

Em que ponto estamos

O número de indivíduos dispostos a cortarem a carne é impressionante. Na última pesquisa realizada no Brasil, em 2017, 63% dos participantes declararam intenção de reduzir o seu consumo de carnes. Nos EUA, uma pesquisa descobriu que 31% dos entrevistados se identificaram como flexitaristas – pessoas que substituem regularmente outros alimentos por carne. Em outras pesquisas, um terço dos britânicos disse ter diminuído ou parado a compra de carne, enquanto metade dos australianos relatou comer menos carne vermelha. A mudança está acontecendo mesmo quando o consumo global de carne aumenta , inclusive nos EUA e em países em desenvolvimento, como a China, com dietas tradicionalmente ricas em vegetais. É especialmente acentuada entre os mais jovens e levou à crescente demanda por uma nova categoria de produtos com sabor e textura semelhantes à carne, leite e queijo. 

Há inúmeras opções de hamburgueres à base de plantas, queijos variados e alternativas ao leite derivadas de castanhas, aveia, arroz, coco e soja, para citar apenas alguns. 

O fervor dos Impossible Burgers (agora nos menus do Burger King), a bebida com leite de aveia Oatly e a versão vegetal de frango frito do KFC levaram à escassez dos produtos nos EUA em 2019. Enquanto os primeiros financiadores incluíam o co-fundador da Microsoft, Bill Gates, os investidores regulares agora estão apostando alto: As ações da Beyond Meat subiram 600%  nos três meses após sua abertura de capital em maio de 2019. O banco Britânico Barclays espera que a indústria de carne alternativa cresça para US $ 140 bilhões na próxima década, ou 10% do mercado global de carne. Além disso, mais consumidores também estão evitando calçados de couro e optando por materiais alternativos até mesmo em interiores de automóveis, o que certamente contribuirá para alavancar ainda mais a economia vegana.

Nem só de alimentos vive essa economia

Mesmo as empresas que não vendem alimentos estão promovendo produtos ou serviços veganos, por isso pode valer a pena explorar alguns desses estabelecimentos em sua área. 

Produtos de couro vegano, estúdios de tatuagem veganos que não usam materiais contendo subprodutos animais, cosméticos que não contêm ingredientes de origem animal ou produtos derivados de animais, como mel ou gelatina, são apenas alguns exemplos. Até mesmo alguns blogueiros agora se especializam em revisar produtos de beleza sem crueldade e / ou veganos. 

Só o tempo dirá, mas com uma nova geração de consumidores conscientes e ávidos por comprar produtos éticos e sustentáveis, o futuro da economia vegana é mais positivo do que nunca.



por Nadia Ferreira Gonçalvez em 2 de outubro