Vivemos em uma sociedade de consumo, isso é inegável. No entanto, o consumo é muito mais que uma simples ação econômica: tem implicações socioculturais e psicológicas. Hoje, os anúncios e a mídia comercial têm mais influência sobre o que pensamos e como falamos sobre o mundo do que a chamada “alta cultura” e a nossa identidade pessoal geralmente está fortemente ligada a uma imagem projetada pelos produtos que compramos e pelas marcas que usamos.

Assim, consumir tornou-se muito mais do que apenas a aquisição de bens materiais necessários. Aí então entra o consumo consciente, uma maneira de enxergar o meio e pensar sobre o que fazemos ao comprar produtos. Qual é o real propósito ou valor de um produto? Estamos promovendo o trabalho infantil ou outra forma de sofrimento humano em um país distante? Estamos apoiando uma empresa que usa modificação genética, explora ou usa testes em animais? O produto vale o pouco prazer que ganhamos com ele ou apenas gera mais lixo? Também podemos olhar para os aspectos positivos: compramos algo saudável, foi produzido de maneira ambientalmente responsável e a empresa é excelente, ética e responsável?

E assim emerge uma nova consciência de consumo

Numa economia moderna e globalizada, pelo menos dois grandes problemas são colocados:

Primeiro, sabemos pouco sobre os produtos provenientes de lugares distantes. Ficaríamos horrorizados se soubéssemos que o cacau usado para fazer nosso chocolate era colhido por escravos infantis ou que os calçados esportivos de qualidade que compramos são fabricados sob condições de trabalho humilhantes e exploradoras em algum lugar do sudeste da Ásia. E segundo, a economia de hoje não é ecologicamente sustentável. Pesquisas ambientais sérias mostram que extraímos muita matéria-prima e energia de nosso meio ambiente enquanto criamos muita poluição e lixo, o que está causando danos ecológicos irreversíveis. 

Só porque os problemas estão distantes ou abstratos, não significa que eles não tenham um impacto sobre nós. E a disseminação da informação provavelmente tem contribuído para a emergência de um novo perfil de consumidor no Brasil.

De acordo com dados da consultoria Euromonitor, 20% dos brasileiros priorizam a compra de produtos de empresas que cumprem compromissos contra as mudanças climáticas, e defendem as cadeias de produção sustentáveis e o justo comércio.

A pesquisa do Instituto Akatu sobre consumo consciente no Brasil, realizada em 2018, indica crescimento significativo do segmento de consumidores conscientes. Esta pesquisa também mostrou uma preferência pelo caminho da sustentabilidade em vez do caminho do consumismo. Entre os 10 maiores desejos dos consumidores brasileiros, 7 seguem o caminho da sustentabilidade e apenas 3 seguem o caminho do consumismo.

Logo, o principal desejo é o de um estilo de vida saudável, com alimentos saudáveis, frescos e nutritivos. No entanto, a alta percepção de custo é o principal obstáculo nessa categoria, ou seja, o preço ainda está longe do que a maioria pode pagar.

E o estilo de vida tem tudo a ver com o perfil de consumo

As pesquisas revelam que há uma estreita relação entre o consumo consciente com o vegetarianismo e o veganismo, estilos de vida que englobam não apenas consumo de alimentos, como também vestuário, cosméticos, produtos de limpeza e muito mais. Tudo isento de matéria-prima de origem animal.

Um exemplo concreto está na redução no consumo de carnes e derivados e o aumento na demanda de produtos alternativos, à base de plantas. Esse mercado cresce a taxas surpreendentes no Brasil

Além disso, os consumidores valorizam, as empresas que se preocupam com as pessoas, envolvendo funcionários, pessoas com deficiência e a comunidade, bem como, com os animais e o meio ambiente. 

É tempo de esperança por um futuro melhor

Sob o mesmo ponto de vista é importante mencionar que o conhecimento de si mesmo e do mundo à volta é um dos principais informantes do comportamento do consumo. À medida que apreciamos como nosso comportamento e o comportamento das marcas que escolhemos afetam a nós e aos outros, o curso de ação saudável e ético se torna a única escolha sensata, em oposição à meramente socialmente aceitável ou habitual.

Neste contexto, as ferramentas digitais estão aumentando nosso conhecimento, de nós mesmos e do mundo, e assim, ajudando a perceber a possibilidade de um consumo verdadeiramente consciente. O autoconhecimento, obtido por meio de aplicativos e dispositivos habilitados para a internet pode muito bem colaborar com nosso comportamento de consumo e dar maior visibilidade ao comportamento das marcas.

Sem visibilidade do comportamento das marcas o conhecimento é incompleto e somos capazes de consumir apenas meio-consciente. No entanto, tudo indica que os consumidores estão interessados ​​em se tornarem plenamente conscientes das circunstâncias em que suas compras são feitas. E à medida que os consumidores se organizam, as marcas devem estar preparadas para um futuro em que as informações sejam radicalmente democratizadas e disseminadas. 

Como consumidores, graças à internet, talvez nunca tenha havido um momento melhor para nos perguntar o que consumimos, quais marcas escolhemos e que impacto pessoal e agregado essas escolhas podem ter. De fato, o conhecimento está se tornando inevitável. Portanto, a esperança é que façamos melhores escolhas. Um número cada vez maior o fará e haverá marcas esperando para fazer um trabalho melhor, atendendo aos desejos e necessidades de longo prazo de consumidores conscientes.

Saiba mais sobre consumo consciente no artigo Upcycling – uma alternativa consciente.



por Nadia Ferreira Gonçalvez em 14 de setembro